ENSAIO SOBRE A RELAÇÃO OBRA / ESCRITOR - O PROCESSO CRIATIVO

                 ENSAIO SOBRE A RELAÇÃO OBRA/ESCRITOR 

                                     O PROCESSO CRIATIVO

Uma questão que sempre vem à tona, quando tratamos de literatura, ou das artes em geral, mas destaco a Literatura, por representar o universo da mais plena manifestação dos sentimentos e emoções, que são possíveis de serem reveladas pela palavra, característica única da nossa espécie, e certamente o passo final da evolução que nos transformou na espécie "sapiens".

Eis a questão: uma obra literária sempre refletirá os sentimentos, conflitos obsessões e visões de mundo do seu autor, ou quase sempre (mas não de forma simples ou direta)?


Uma obra literária nasce do autor, então inevitalmente carrega algo de seus sentimentos, conflitos, visões de mundo e até de suas obsessões silenciosas. Mesmo quando o escritor  tenta ser "objetivo", ele escolhe palavras temas e perspectivas - e essas escolhas já são subjetivas.

Há três aspectos importantes que devem ser relevados:

1. Não é um espelho fiel, é uma transformação

            O que aparece na obra não é o sentimento bruto do autor, e sim algo trabalhado, filtrado, às vezes até disfarçado.  Um sofrimento pessoal pode virar ironia, humor ou fantasia.

2.  O autor não é igual ao narrador

            Personagens podem expressar ideias que o autor não defende.  

            Em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, por exemplo, o narrador é cínico e egoísta - isso não significa que Machado de Assis pense exatamente assim. É uma construção.   

3.  A obra também responde ao mundo, não só ao "eu".

            Contexto histórico, cultura, política, linguagem - tudo atravessa o texto. Um autor escreve com o seu tempo, mesmo quando tenta fugir dele.

            Talvez a melhor forma de dizer seja:

            a obra literária não é um retrato do autor, mas uma negociação entre o que ele sente, o que ele pensa e o que o mundo permite dizer.

4.    O autor nunca escreve sozinho

            Escreve o que sobrevive depois do sentimento.

            Entre o impulso e a palavra, há um filtro: linguagem, medo, vaidade, e sobretudo, forma.

            Nenhuma obra é confissão.  É sempre edição.  O amor no texto, já não é amor:  é construção sintática do que restou dele.

            O ódio, quando bem escrito, perdeu sua urgência - tornou-se estética.

            O autor que diz "eu", já está mentindo em alguma medida.

            Não porque queira - mas porque  escrever é escolhe, e toda escolha elimina um mundo.

            O narrador não é o autor: é sua máscara mais convincente.  E às vezes, sua forma suportável de existir.

            Toda obra carrega o autor - mas como um eco deformado, nunca como presença inteira.

            Escrever não é revelar-se.  É esconder-se  com método.

                         MANUAL SECRETO DO AUTOR                      

1. O estilo é uma defesa

            Antes de ser estética, o estilo é proteção.  Ninguém escreve "bonito" por acaso - é sempre uma forma de não ser ferido diretamente.

2. Toda escrita é cálculo

             Mesmo o improviso é treinado.  Até o excesso tem método.

3. O autor escreve para não dizer

            Se quisesse dizer, falaria.  Escreve porque precisa desviar.

4. A sinceridade é uma técnica

            O que parece cru, foi cuidadosamente lapidado para parecer inevitável.

5. O leitor completa a mentira

            Sem o leitor, o texto é só prossibilidade.  É ele quem acredita - e ao acreditar, termina a obra.

6. Nenhum texto é inocente

            Toda frase que algo: admiração, adesão, choque ou permanência.

7. O silêncio também é escrito     

            O que o autor omite, é tão decisivo quanto o que ele revela.       

8. Escrever é escolher um fracasso

            Toda obra é menor do que  aquilo que a motivou.  Mas ainda assim -  ou por isso mesmo - ela existe.

9. O autor se repete, por que não resolveu

            Tema recorrente não é estilo: é insistência de ma ferida que não fecha.

10. Publicar é perder o controle

            Depois de publicado,o texto não pertence mais a quem escreveu.  Pertence a quem lê - e ao tempo.

11. O reconhecimento é um mal-entendido coletivo

            Chamam de "grande obra", aquilo que muitos  conseguiram usar para si.

12. O autor busca o impossível

            Ser compreendido sem ser exposto.  Ser lido sem ser reduzido.

                                    O TEMPO E O ESQUECIMENTO                                   

1. O tempo é o verdadeiro leitor

            Antes de qualquer leitor, é o tempo que decide se um texto respira ou apodrece.

2. Toda obra é escrita contra o esquecimento

            E ainda assim, a maioria já nasce condenada.

3. Escrever é atrasar o fim

            Não impedir, apenas adiar.

4. O esquecimento é a regra

            A memória é o acidente.

5. O tempo corrige o autor

            O que parece profundo, amanhã será excesso - ou silêncio involuntário.

6. A obra envelhece em público

            E não pode se defender.

7. O clássico é um sobrevivente improvável 

            Não o melhor - mas o que resistiu a mais interpretações.

8. Ser lido não é permanecer

            Há textos intensamente lidos que desaparecem sem deixar vestígios.

9. O esquecimento também é uma forma de leitura

            O mundo lê, julga, e depois descarta.

10. O tempo é um editor sem piedade

            Corta reputações inteiras sem justificar o motivo.

11. A posteridade é um mito confortável

            O autor escreve para um futuro que raramente responde.

12. Esquecer é necessário

            Se tudo permanecesse, nada teria valor.

                                    FINALMENTE, O QUE RESTA

              No fim, a obra permanece, mas não como o autor imaginou.

               O tempo apaga intenções, corroi contextos, desorganiza sentidos

                O que era confissão, vira estilo.  O que era urgente, vita citação. O que era dor vira forma.

                O autor desaparece - lentamente, inevitavelmente e deixa no lugar um conjunto de frases tentando resistir.

                Algumas resistem. Não porque sejam verdadeiras, mas porque aprendeeram a sobreviver sem ele.

                Toda obra é isso: um vestígio que insiste.  E escrever, no fundo, é aceitar esse destino estranho - desaparecer para que algo, talvez, permaneça.

                                    E A CRIATIVIDADE? COMO PERCEBÊ-LA?

                  O que é esse processo, como ele acontece, qual a sua fonte origjnal?

                   Penso que a criatividade transcende as inúmeras tentativas de explicá-la. O que podemos observar é que transforma a realidade, ou a sua projeção, em um cenário imaginado, numa obra de arte, onde ocorre uma transfiguração do mundo real, factual, reconstruído, no universo imaginário do escritor, ou do artista.

                    Cenários, personagens, acontecimentos, movem-se num mundo paralelo, fruto da  criatividade do escritor, tratando-se da Literatura.

                    A criatividade não é um elemento esotérico, que acontece no mistério. É um processo inteligente, que envolve sentimentos e emoções do escritor, no caso da Literatura, dando-se o mesmo nas Artes Plásticas e nas artes de representações, como o teatro, por exempo, e em todas as manifestações que podemos entender como Arte.  É um ato humano, que transforma a experiência e a realidade existente em um mundo imaginado.

31 de março de 2026

prof. mario moura



        



            



            

                



            

            

            

 


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