APENAS UM HOMEM SOLITÁRIO
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APENAS UM HOMEM SOLITÁRIO
Naquela rua quase esquecida pelo tempo, a casa de janelas azuis permanecia sempre fechada, como se guardasse um segredo antigo. Ali vivia Anselmo, um homem que aprendera a medir o tempo não pelos relógios, mas pelos silêncios.
Viúvo há muitos anos, ele encontrara em Cícero — um cão de olhar atento e paciência quase humana — a única companhia constante. Conversavam longamente. Ou, ao menos, era o que Anselmo dizia a si mesmo. Sentado na poltrona gasta da sala, com um livro aberto sobre os joelhos, ele lia trechos em voz alta:
— Veja, Cícero, o que dizem sobre a natureza do ser... — pausava, ajustava os óculos, e olhava o cão. — Não lhe parece que estamos sempre à procura de algo que nem sabemos nomear?
Cícero, deitado ao seu lado, inclinava levemente a cabeça, como se ponderasse. Era o suficiente.
Os dias seguiam em uma rotina quase ritualística. Pela manhã, caminhava lentamente até a padaria da esquina. Era o único momento em que sua solidão se abria ao mundo. O dono, um português de fala arrastada e entusiasmo vibrante, sempre o recebia com um sorriso:
— Hoje lembrei de uma passagem magnífica de Eça! — dizia, enquanto embrulhava o pão.
Anselmo escutava, às vezes sorria, e raramente respondia além de um comentário breve. Gostava daquelas conversas, ainda que nunca admitisse. Havia nelas algo de previsível, e isso lhe trazia conforto.
Mas era ao entardecer que sua alma realmente despertava.
A varanda tornava-se palco de suas memórias. Com uma taça de vinho nas mãos — às vezes duas — ele se acomodava na cadeira de balanço, enquanto a música preenchia o ar. Os noturnos ecoavam suaves, quase como se viessem de dentro dele.
— Ah, Cícero... — murmurava — há coisas que só a música entende.
E então vinham as lembranças.
Os amores que não se cumpriram. Os encontros que chegaram tarde demais. O rosto da esposa, que às vezes surgia nítido, às vezes dissolvido como um sonho ao acordar. Ele não chorava. Apenas observava essas imagens com a serenidade de quem já fez as pazes com a perda.
Certa noite, após um desses entardeceres, contou ao cão sobre um sonho estranho:
— Estávamos num barco, você e eu... mas o mar era feito de páginas de livros. E cada onda trazia uma história diferente. — riu baixo — Nunca consegui chegar ao fim de nenhuma.
Cícero levantou-se, aproximou-se e apoiou o focinho em seu joelho.
— Talvez não seja preciso chegar ao fim — disse Anselmo, pensativo. — Talvez baste navegar.
O vento soprou leve, e as folhas de uma árvore próxima sussurraram algo que ele não conseguiu entender. Ou talvez tenha entendido, mas preferiu guardar para si.
Naquela casa de janelas azuis, o mundo era pequeno, mas profundo. E, entre livros, memórias e diálogos improváveis, Anselmo seguia vivendo — não à margem da vida, mas em um ritmo próprio, onde cada silêncio tinha significado e cada palavra, quando dita, era necessária.
E assim, noite após noite, ao som de sua música preferida, ele continuava sua travessia invisível, sempre acompanhado.
Sempre com Cícero.
Anselmo nunca admitiria, nem a si mesmo, mas havia um certo cuidado na escolha do horário em que ia à padaria. Nem cedo demais, para evitar os vizinhos apressados; nem tarde, quando o movimento cessava. Ele sabia exatamente quando encontraria o português sozinho atrás do balcão, como se ambos tivessem, silenciosamente, combinado aquele encontro cotidiano.
O sino da porta tilintava, e o dono, Joaquim, erguia os olhos com um brilho imediato de reconhecimento.
— Ora, senhor Anselmo! Chegou em boa hora. Hoje amanheci com Eça na cabeça!
Anselmo apenas assentia, aproximando-se do balcão.
— Um pão, como de costume.
Mas Joaquim já estava embalado.
— Sabe, há uma ironia fina em Eça que poucos percebem... aquela maneira de expor as fraquezas humanas como quem descreve o clima. Natural, inevitável! — inclinava-se sobre o balcão — Já leu Os Maias mais de uma vez?
— Mais do que deveria — respondia Anselmo, com um meio sorriso. — E cada leitura parece menos sobre os personagens... e mais sobre nós.
Joaquim batia levemente na madeira do balcão, satisfeito.
— Exatamente! É isso! — fazia uma pausa dramática, como se estivesse prestes a mudar de assunto, o que de fato acontecia — Mas veja, meu caro, nada se compara às histórias do mar. Aquilo sim é literatura viva!
Anselmo permanecia em silêncio, como quem permite que o outro continue.
— Imagine os navegadores portugueses — prosseguia Joaquim, com os olhos distantes — dias e dias sem ver terra, enfrentando tempestades, monstros que nem sabiam se eram reais... — baixava a voz — ou o próprio medo, que às vezes é pior que qualquer criatura.
— O desconhecido sempre foi o maior dos oceanos — comentou Anselmo.
Joaquim sorriu largo.
— Ora, veja só! O senhor fala pouco, mas quando fala... — apontou para ele com o embrulho do pão — parece que traz consigo um pedaço desses mares.
Anselmo pegou o pão, mas não se moveu para sair.
— E diga-me — continuou Joaquim — o que acha que movia aqueles homens? Era coragem? Ganância? Fé?
Anselmo demorou a responder. Olhou para a rua, como se buscasse algo que já não estava lá.
— Talvez uma inquietação... — disse enfim — aquela sensação de que ficar é, de certo modo, desaparecer.
Joaquim ficou em silêncio por um instante, algo raro.
— Nunca pensei assim — murmurou.
— Nem eu, até agora — respondeu Anselmo, quase para si mesmo.
Havia momentos como aquele, em que a conversa deixava de ser apenas entusiasmo de um lado e escuta do outro. Tornava-se algo mais sutil, como um encontro breve entre duas solidões que se reconhecem.
Mas Joaquim logo retomava seu tom habitual.
— Ah! E as caravelas! Já leu descrições detalhadas? Aquilo era engenho e coragem! Pequenas, frágeis... e ainda assim cruzaram o mundo! — ergueu as mãos — Hoje temos tudo e não saímos do lugar!
Anselmo ajeitou o casaco.
— Às vezes, viajar demais também é uma forma de não chegar.
Joaquim riu.
— O senhor sempre complica o simples!
— Ou simplifico o complicado.
Os dois trocaram um olhar breve. Era o máximo de cumplicidade que permitiam.
— Até amanhã, senhor Anselmo?
— Talvez.
E saía, sempre com a mesma calma, como se carregasse mais do que pão nas mãos.
Ao retornar para casa, Cícero o esperava na porta, abanando o rabo com discrição — como se soubesse que havia ali algo importante, embora invisível.
— Hoje falamos de mares, meu amigo — dizia Anselmo, entrando. — Mas curiosamente... sinto que foi de nós que tratávamos.
Cícero o acompanhava até a sala, onde o silêncio retomava seu lugar. Mas não era mais o mesmo silêncio.
Havia nele ecos de palavras, de ideias, de histórias que atravessavam séculos.
E, naquele pequeno trajeto entre a casa e a padaria, Anselmo talvez navegasse mais do que jamais admitiria.
O cotidiano de Anselmo não se organizava por compromissos, mas por estados de espírito. Havia dias em que a manhã se alongava demais, e ele permanecia sentado com um livro aberto sem realmente ler — apenas percorrendo com os olhos frases que já conhecia de memória. Em outros, levantava-se cedo, como se tivesse sido chamado por algo indefinido, e caminhava pela casa em silêncio, seguido de perto por Cícero.
O nome do cão não fora escolhido ao acaso.
— Você carrega um peso, meu caro — dizia-lhe, enquanto coçava atrás de suas orelhas. — Não qualquer nome, mas o de um homem que dominava as palavras como poucos.
Às vezes, declamava trechos inteiros, com a voz firme, quase solene, como se ainda houvesse uma plateia invisível à sua frente. Cícero o observava com atenção paciente.
— “Até quando, afinal, abusarás da nossa paciência?” — recitava, erguendo levemente a mão, como se interpelasse um inimigo ausente. Em seguida, relaxava e sorria de leve. — Veja, Cícero… há perguntas que atravessam os séculos sem perder a força.
O cão piscava lentamente, e isso bastava para que o diálogo se sustentasse.
Mas era ao entardecer que o mundo de Anselmo adquiria outra densidade.
A varanda tornava-se seu refúgio absoluto. A luz dourada do sol em declínio tocava os móveis antigos, desenhando sombras longas e melancólicas. Ele servia o vinho com cuidado, como quem respeita um ritual silencioso. A primeira taça era sempre mais contemplativa; a segunda, mais confessional.
Cícero deitava-se ao seu lado.
— Há algo no entardecer que não existe em nenhum outro momento — começava Anselmo, girando lentamente o vinho na taça. — Não é exatamente tristeza… mas também não é paz. É como se o dia estivesse pensando sobre si mesmo antes de partir.
Ficava em silêncio por alguns instantes, ouvindo a música que preenchia o ar com uma delicadeza quase palpável.
— Sabe… — continuava — há lembranças que escolhem esse horário para voltar.
E então ela surgia.
Não como uma dor aguda, mas como uma presença suave e inevitável. Um amor da maturidade, tardio e intenso, daqueles que não prometem eternidade, mas ainda assim a insinuam. Ele nunca dizia seu nome em voz alta, como se temesse quebrar algo frágil.
— Não fomos jovens — dizia, olhando para o horizonte — e talvez por isso tenhamos sido mais verdadeiros.
Contava a Cícero pequenos episódios, quase insignificantes: o modo como ela segurava a xícara com as duas mãos, como ria de coisas simples, como certa vez discordaram sobre um livro e passaram horas defendendo pontos opostos apenas pelo prazer da conversa.
— Era uma presença… — pausava — não uma necessidade.
O silêncio que se seguia era diferente dos outros. Mais denso, mais cheio.
— E então, de repente… ausência.
Nunca descrevia o momento da perda. Esse permanecia intocado, como uma ferida que ele aprendera a não tocar diretamente.
Cícero, como se percebesse a mudança, aproximava-se mais.
— Não se preocupe — dizia Anselmo, com um leve gesto — a dor muda de forma com o tempo. Já não pesa… mas também não desaparece.
Havia dias, porém, em que ele deixava a varanda antes do escurecer completo e caminhava até o mar.
Ali, tudo parecia mais simples.
Tirava os sapatos e deixava que a água fria tocasse seus pés. Caminhava devagar, acompanhando o ritmo das marolas que avançavam e recuavam com uma paciência infinita. O verde esmeralda do mar, sob a luz suave, tinha algo de hipnótico.
— Veja, Cícero — dizia, olhando para a linha do horizonte — aqui não há perguntas difíceis.
O cão corria um pouco à frente, depois voltava, como se marcasse o caminho.
— O mar não exige respostas… apenas presença.
Havia uma paz ali que não encontrava em nenhum livro, por mais profundo que fosse. Uma sensação de dissolução suave, como se por alguns instantes ele deixasse de ser apenas um homem carregando memórias, e se tornasse parte de algo maior, mais antigo, mais indiferente — e, justamente por isso, mais acolhedor.
Ao retornar para casa, a noite já havia tomado conta da rua. A varanda permanecia lá, silenciosa, aguardando o próximo entardecer.
E assim, entre palavras antigas, memórias persistentes e o ritmo calmo do mar, Anselmo seguia habitando seus dias.
Não em busca de respostas.
Mas em companhia das perguntas certas — e de um cão que, mesmo sem falar, parecia compreendê-las todas.
Havia uma solidão em Anselmo que não era abrupta nem desesperada. Não chegava como tempestade, nem exigia ser notada. Instalava-se devagar, como uma névoa que se infiltra pelos cantos da casa ao cair da tarde. Mesmo com Cícero ao seu lado — presença fiel, quase humana — havia momentos em que o silêncio entre um pensamento e outro se alargava demais.
— Curioso, meu amigo… — dizia, sem olhar diretamente para o cão — como alguém pode estar acompanhado e, ainda assim, sentir-se distante de tudo.
Cícero permanecia ali, atento, mas havia territórios onde nem mesmo sua lealdade podia alcançar.
Esses instantes surgiam, sobretudo, quando o vinho já aquecera levemente o corpo e a música parecia vir de um lugar muito interior. Não era tristeza declarada. Era antes uma espécie de suspensão — como se o mundo perdesse um pouco de sua densidade, tornando-se mais leve, porém também mais vazio.
As lembranças, nesses momentos, deixavam de ser narrativas organizadas. Tornavam-se fragmentos. Um gesto. Um olhar. Um riso interrompido. E, entre esses fragmentos, surgia algo mais sutil e inquietante: a percepção do que não aconteceu.
— Não é apenas o que perdemos… — murmurava — mas o que poderia ter sido.
As nuvens de pensamento vinham assim, sem violência. Pairavam. E com elas, um fio quase imperceptível de melancolia, que não sufocava, mas também não se dissipava completamente.
Ele aprendera a não resistir.
— Talvez seja isso, Cícero… — dizia, passando a mão lentamente sobre o dorso do cão — aceitar que a vida não se completa. Ela apenas se encerra.
Havia, nesses momentos, uma lucidez que beirava o desconforto. Não era pessimismo. Era uma clareza silenciosa, como se ele enxergasse as bordas das coisas com mais nitidez do que antes.
E então vinha o corpo.
Um cansaço leve, porém constante. Uma pontada aqui, outra ali. Nada suficientemente grave para alarmar, mas também nada que pudesse ser ignorado por completo. Ele nunca falava disso diretamente, nem mesmo com Cícero. Mas ajustava-se. Caminhava um pouco menos. Sentava-se um pouco mais cedo. Servia apenas uma taça quando antes seriam duas.
— O corpo tem sua própria linguagem… — disse certa vez, quase em tom de descoberta — e, ao contrário das palavras, ele não mente.
Havia dias em que, ao caminhar pela areia, precisava parar por alguns instantes. Observava o mar, respirava fundo, e seguia. Não com dificuldade evidente, mas com uma consciência nova de cada passo.
A brevidade da vida deixara de ser uma ideia filosófica. Tornara-se uma sensação.
E, no entanto, não havia desespero.
Se algo mudara em Anselmo, fora a forma como habitava o tempo. Já não o via como uma extensão indefinida, mas como um espaço finito — e, por isso mesmo, mais denso, mais precioso em seus detalhes mínimos.
Na varanda, certa noite, enquanto a música se dissolvia no ar e o vinho repousava intocado na taça, ele falou com uma serenidade incomum:
— Sabe, Cícero… acredito que sempre soube. — fez uma pausa — Há algo em mim que se despede aos poucos.
O cão ergueu a cabeça, como se pressentisse a gravidade daquele instante.
— Não é dor. Nem medo. — continuou — é apenas… um aviso discreto.
Olhou para o horizonte, já escuro.
— Como o entardecer. Ele nunca nos surpreende. Sabemos que virá. E, ainda assim, há algo de profundamente comovente em cada vez que acontece.
Cícero aproximou-se, encostando-se em sua perna. Anselmo pousou a mão sobre ele, com um gesto lento, quase agradecido.
— Talvez a vida seja isso — murmurou — uma sucessão de despedidas suaves.
E ali, entre a presença silenciosa do cão, a memória dos amores vividos e a consciência tranquila de sua própria finitude, Anselmo não parecia um homem vencido pela solidão.
Mas alguém que aprendera a escutá-la.
E, ao escutá-la, transformá-la em companhia.
Do ponto de vista psicológico, Anselmo revela uma estrutura interior marcada por introspecção profunda e elaboração afetiva contínua. Sua solidão não é patológica no sentido clássico, mas limítrofe: oscila entre escolha e condição. Ele construiu uma vida de contenção emocional, onde os vínculos são poucos, porém intensamente significativos. A perda — especialmente a do amor tardio — não foi reprimida, mas integrada de forma contemplativa, o que explica sua capacidade de recordar sem colapsar.
Contudo, há sinais de um processo mais silencioso: uma possível somatização da finitude. Seu corpo, com seus pequenos alertas, funciona como mediador entre a consciência e o inevitável. Não há negação, mas também não há enfrentamento direto. Trata-se de uma aceitação progressiva, quase estética, da própria transitoriedade.
Anselmo não luta contra o tempo. Ele o observa.
E, nesse gesto, revela tanto sua lucidez quanto sua fragilidade.
mario moura
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