PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS - A condição humana no cotidiano
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PEQUENAS HISTÓRIAS SEM TESTEMUNHAS
A condição humana no cotidiano
Sumário
> Um escritor , seus personagens e um conflito
> Reflexões sobre a casualidade do destino
> Quando eu crescer
> Amargas memórias
> Amarguradas recordações
> Traição
> Uma estranha percepção
> Heresia
> E assim a vida acontece
> Não há o lado de fora
> Apenas um homem solitário
UM ESCRITOR, SEUS PERSONAGENS E UM CONFLITO
O escritor já não sabia se era ele quem criava o personagem, ou se era o personagem que o escrevia. Sentado diante da tela em branco, com o cursor piscando como um coração impaciente, ele tentava domar aquela figura que surgira quase por acaso — um homem de presença esmagadora, cuja vontade dobrava todos ao redor.
No início, parecia simples. Seria apenas um antagonista: alguém rígido, autoritário, talvez até cruel. Mas, conforme as páginas avançavam, o personagem crescia de forma desproporcional. Invadia cenas que não lhe pertenciam, silenciava vozes que deveriam ter importância, reorganizava a história ao seu bel-prazer. Tornava-se, pouco a pouco, o eixo de tudo.
O escritor fechou o arquivo, inquieto.
“Por que ele precisa dominar tanto?”, murmurou.
A pergunta ecoou além da ficção. Ele começou a perceber que aquela tirania não era apenas narrativa — era familiar. Recordou-se do pai, cuja palavra era lei à mesa; das reuniões em que ninguém ousava discordar do tio mais velho; das relações profissionais onde o poder se disfarçava de competência, mas operava como controle.
O personagem não era invenção. Era síntese.
De volta ao texto, o escritor tentou enfraquecê-lo. Introduziu falhas, hesitações, pequenos momentos de vulnerabilidade. Mas o tirano reagia — não aceitava ser diminuído. Em cada diálogo, encontrava formas de recuperar o domínio, de manipular, de impor sua visão.
“Talvez o problema não seja ele”, pensou o escritor. “Talvez sejam os outros.”
E então percebeu: os demais personagens haviam sido construídos para ceder. Tinham sido moldados para evitar conflito, para aceitar, para sobreviver à força do outro. Não era apenas o tirano que precisava mudar — era o mundo ao redor dele.
Reescreveu tudo.
Deu voz a quem antes se calava. Criou resistência onde havia submissão. Introduziu confronto, não como violência, mas como afirmação. E, pela primeira vez, o tirano hesitou. Sua força já não era absoluta. Seu poder encontrava limites.
O escritor respirou fundo.
Não havia eliminado o personagem — apenas o colocado em relação. E nisso encontrou uma estranha paz: o poder, afinal, não existe sozinho. Ele se sustenta nas estruturas que o permitem.
Ao salvar o arquivo, percebeu que sua inquietação não era sobre escrever um tirano, mas sobre entender por que, tantas vezes, permitimos que existam.
E, talvez, como na ficção, a resposta começasse em dar voz a quem sempre foi escrito em silêncio.
O escritor, já imerso demais em suas próprias construções, começou a suspeitar que havia deslocado demais a responsabilidade. Durante capítulos inteiros, o controle parecia nascer do Estado, das normas, das estruturas. Mas algo não fechava. Havia momentos — pequenos, quase invisíveis — em que o controle surgia mesmo na ausência de qualquer regra explícita.
Foi isso que o fez parar.
E se o impulso de controlar não fosse apenas político, mas humano?
Ele voltou ao texto com outro olhar. Passou a observar não apenas o tirano, nem apenas o Estado difuso, mas os gestos cotidianos entre os personagens. Um corrigia a fala do outro. Outro decidia por alguém “para o seu bem”. Pequenas interferências, justificadas por cuidado, eficiência, amor.
Lina, que antes parecia uma força de desestabilização externa, também não escapou desse novo enquadramento. Em uma cena, ao tentar abrir espaço para que um personagem se expressasse, ela interrompe outro. Quase imperceptível — mas ali estava: a tentativa de conduzir, de direcionar, de moldar o fluxo.
O escritor hesitou ao escrever isso.
Seria incoerente? Ou inevitável?
Começou então a perceber que o controle podia ser menos uma imposição consciente e mais uma inclinação profunda — uma forma de lidar com a incerteza. Controlar o outro, a situação, o ambiente… talvez fosse, em parte, uma tentativa de organizar o caos, de reduzir o imprevisível que tanto inquieta.
O tirano, nesse novo recorte, deixava de ser uma exceção monstruosa e se tornava uma intensificação. Ele não era diferente em natureza — apenas em grau. Onde outros sugeriam, ele impunha. Onde outros influenciavam, ele dominava.
Essa percepção desconcertou o escritor.
Se o controle é um dado da personalidade humana, então nenhuma estrutura — nem mesmo as mais libertárias — estaria completamente livre dele. Ideologias poderiam deslocá-lo, disfarçá-lo, redistribuí-lo… mas dificilmente eliminá-lo.
Na narrativa, isso começou a aparecer como uma espécie de tensão permanente. Mesmo nos espaços criados por Lina, onde as hierarquias eram questionadas, surgiam disputas sutis: quem fala mais, quem define os temas, quem interpreta melhor o que é “liberdade”.
— Até a recusa em controlar pode virar uma forma de controle — escreveu o autor, quase como uma nota para si mesmo.
O silêncio que se seguiu a essa frase foi diferente. Não era mais o silêncio imposto pelo medo ou pela norma, mas um silêncio reflexivo, incômodo. Como se os personagens — e o próprio escritor — estivessem confrontando algo que não podia ser facilmente resolvido.
Ele percebeu então que talvez o objetivo não fosse erradicar o controle, mas torná-lo visível. Reconhecer quando ele emerge, como se manifesta, a quem serve. Talvez a ética não estivesse em negá-lo, mas em interrogá-lo constantemente.
O tirano continuava existindo. O Estado também. Lina, com todas as suas contradições, permanecia ativa. Mas agora havia algo mais difuso, atravessando todos: uma consciência incipiente de que o poder não é apenas uma estrutura externa, mas uma possibilidade interna.
Ao fechar o capítulo, o escritor não sentiu alívio. Sentiu algo mais complexo — uma espécie de lucidez desconfortável.
E escreveu, como última linha:
“O problema não é apenas quem nos controla, mas o quanto desejamos controlar — e o que fazemos com esse desejo quando o reconhecemos.”
Pedro quase não existia na narrativa. Era desses personagens que ocupam bordas: escuta mais do que fala, aparece sem anúncio, sai sem deixar rastro. O escritor mal havia lhe dado atenção — talvez por isso mesmo ele permanecesse livre de excessos, não capturado por nenhuma função clara.
Foi numa cena aparentemente banal que Pedro falou.
Os personagens discutiam — Lina, o tirano, outros que orbitavam entre tensão e hesitação. Falavam do Estado, da liberdade, das normas. As posições já começavam a se repetir, como se cada um ocupasse um lugar previsível naquele tabuleiro.
Pedro, encostado à janela, disse quase em tom de distração:
— E se o Estado for só um reflexo da gente? Dessa necessidade de organizar… e controlar?
Ninguém respondeu de imediato.
O silêncio não era de desinteresse, mas de deslocamento. A pergunta não atacava diretamente ninguém, nem defendia algo específico. Ela dissolvia fronteiras.
O tirano foi o primeiro a reagir, mas com menos firmeza do que o habitual:
— Então você está dizendo que ele é inevitável?
Pedro deu de ombros.
— Talvez não inevitável… mas compreensível.
Lina franziu levemente o rosto. Não como quem rejeita, mas como quem reconhece um terreno mais difícil.
— Se for assim — disse ela —, o problema não está só nas instituições. Está em como a gente se relaciona. Em como a gente lida com o outro, quando ele escapa do que esperamos.
O escritor percebeu que algo sutil estava acontecendo: Pedro não enfraquecia o debate — ele o aprofundava, retirando dele qualquer possibilidade de solução simples.
Se o Estado é reflexo, combatê-lo sem se transformar seria inútil. Se o controle nasce também do humano, nenhuma reorganização externa bastaria.
Mas Pedro não desenvolvia teorias. Permanecia econômico, quase ausente. Sua pergunta, porém, continuava operando.
Outro personagem, antes calado, arriscou:
— Então a gente cria o que depois diz que nos oprime?
Pedro não respondeu diretamente.
— A gente cria… e depois esquece que criou.
O escritor parou nessa frase.
Havia ali uma inversão poderosa: o Estado não apenas organiza a vida coletiva, mas também cristaliza impulsos humanos — dando-lhes forma, permanência, legitimidade. O que em um indivíduo é gesto, em uma estrutura vira regra. O que é desejo de controle vira sistema.
O tirano, nesse momento, pareceu menor — não porque perdeu poder, mas porque deixou de ser origem. Tornou-se sintoma.
Lina, por sua vez, não abandonou sua posição, mas a deslocou:
— Então talvez a questão não seja destruir o Estado — disse ela —, mas impedir que ele congele aquilo que deveria estar sempre em movimento.
Pedro esboçou um leve sorriso, quase imperceptível.
O escritor percebeu que, diferente dos outros, Pedro não buscava conduzir a narrativa. Ele introduzia fissuras e recuava. Não queria vencer o debate — queria torná-lo impossível de encerrar-se.
E isso, de forma paradoxal, era uma das intervenções mais profundas até então.
Ao reler a cena, o escritor entendeu que havia dado voz a algo essencial: a ideia de que o poder não é apenas imposto ou resistido, mas produzido — continuamente — pelas próprias formas de ser e de conviver.
Pedro voltou ao silêncio depois disso. Mas já não era invisível.
Sua pergunta permanecia, ecoando além das páginas:
Se o Estado é reflexo, o que estamos dispostos a ver quando olhamos para ele?
O escritor hesitou antes de responder — não como narrador, mas como alguém implicado na própria pergunta que ecoava agora entre seus personagens.
A questão de Pedro não permitia atalhos: se o Estado é reflexo de impulsos humanos — organizar, prever, controlar, proteger — então a pergunta sobre sua inevitabilidade não pode ser separada da pergunta sobre nós mesmos.
Na narrativa, isso começou a se desdobrar em camadas.
O tirano foi o primeiro a reivindicar a inevitabilidade:
— Sempre que há muitos, alguém precisa decidir. Sempre que há conflito, alguém precisa arbitrar. Sem isso, o que sobra é desordem.
Mas dessa vez, sua fala não encerrava o assunto. Parecia mais uma tentativa de fixar algo que começava a escapar.
Lina respondeu com cautela, como quem pisa em terreno instável:
— Talvez a organização seja inevitável. Mas isso não significa que precise assumir sempre a forma de um Estado centralizado, rígido, permanente.
O escritor percebeu então um deslocamento importante: a discussão deixava de ser “Estado ou não Estado” e passava a ser “que formas de organização emergem — e por quê?”.
Pedro, como de costume, não tomou partido. Apenas acrescentou:
— A gente confunde o que aparece com o que é necessário.
Essa frase abriu outra fissura.
Talvez o Estado, como o conhecemos, não seja inevitável — mas recorrente. Uma resposta frequente a problemas reais: coordenação, organização, controle, convivência em larga escala. Ele surge porque resolve algo… mas também porque cristaliza certas tendências humanas, como o desejo de estabilidade e o medo do imprevisível.
O escritor começou a enxergar que a inevitabilidade pode estar menos na instituição e mais na tensão que a produz: entre liberdade e ordem, entre autonomia e coordenação, entre diferença e convivência.
Na narrativa, isso se refletiu em pequenos experimentos. Grupos de personagens tentavam se organizar sem hierarquia fixa. Em alguns momentos, funcionava — havia cooperação, escuta, fluidez. Em outros, surgiam impasses, decisões adiadas, conflitos difíceis de resolver.
E, quase sem perceber, alguém começava a assumir mais responsabilidade. Outro passava a ser mais ouvido. Estruturas informais emergiam.
— Está vendo? — disse o tirano, com um meio sorriso — sempre volta.
Mas Lina não recuou:
— Volta… mas não precisa voltar igual.
O escritor entendeu que essa era talvez a resposta mais honesta que a narrativa podia oferecer: não uma afirmação categórica sobre inevitabilidade, mas o reconhecimento de padrões — e da possibilidade de transformá-los.
O Estado pode ser uma forma recorrente de organizar a vida coletiva porque responde a necessidades humanas profundas. Mas isso não o torna imutável, nem único, nem acima de questionamento.
Pedro, ao final da cena, acrescentou algo que soou menos como conclusão e mais como provocação:
— Talvez a pergunta não seja se ele é inevitável… mas o quanto estamos dispostos a reinventá-lo.
O escritor fechou o capítulo sem resolver a questão. E percebeu que isso não era falha — era fidelidade à complexidade do tema.
Porque algumas perguntas não pedem resposta definitiva.
Pedem vigilância constante.
mario moura
REFLEXÕES SOBRE CASUALIDADE DO DESTINO
Após trinta anos entrando no mesmo prédio, cumprimentando as mesmas pessoas e tomando café no mesmo copo gasto, Augusto jamais imaginou que sua rotina teria um fim tão abrupto.
Numa terça-feira qualquer, foi chamado à sala da gerência. As palavras vieram frias e diretas: “reestruturação”, “corte de custos”, “agradecemos sua dedicação”.
Em poucos minutos, três décadas foram reduzidas a um aperto de mão e uma caixa de papelão com seus pertences.
Nos dias seguintes, o tempo pareceu se expandir de forma desconfortável. Augusto acordava cedo por hábito, mas não tinha para onde ir.
Caminhava pela casa como um visitante, tentando se reconhecer naquele novo silêncio. A identidade que havia construído ao longo dos anos — a de funcionário exemplar, pontual e confiável — parecia ter sido arrancada junto com seu crachá.
Numa tarde abafada, decidiu sair para espairecer. Entrou em uma pequena lotérica de bairro, mais por impulso do que por esperança.
Comprou um bilhete qualquer, sem escolher números com cuidado, sem fazer promessas ao destino. Guardou o papel no bolso e voltou para casa, esquecendo-se dele quase imediatamente.
Os dias passaram. Entre currículos enviados e respostas que nunca vinham, Augusto começou a sentir o peso da incerteza. Até que, uma noite, enquanto assistia distraidamente à televisão, ouviu os números sorteados. Algo o fez levantar-se, quase sem pensar, e procurar o bilhete amassado.
Um a um, conferiu os números. No início, duvidou da própria visão. Depois, conferiu novamente. E mais uma vez. Quando a realidade finalmente se impôs, suas mãos começaram a tremer. Augusto havia ganhado um prêmio milionário.
O choque inicial deu lugar a uma mistura de alívio, incredulidade e, curiosamente, medo. Dinheiro, percebeu ele, não resolvia tudo de imediato. Nos dias seguintes, enquanto cuidava da burocracia e mantinha o segredo, Augusto teve tempo para pensar — algo que não fazia há anos.
Com o passar das semanas, tomou decisões que surpreenderam até a si mesmo. Não comprou uma mansão extravagante nem carros de luxo. Em vez disso, reformou a própria casa, ajudou discretamente alguns familiares e, sobretudo, decidiu investir em algo que sempre quis, mas nunca teve coragem: abriu uma pequena biblioteca comunitária no bairro onde cresceu.
Ali, entre estantes simples e livros cuidadosamente escolhidos, Augusto reencontrou um tipo de propósito que o emprego nunca lhe dera. Conversava com crianças curiosas, orientava jovens e redescobria o prazer das pequenas coisas.
Certo dia, ao organizar alguns livros, encontrou no bolso de um casaco antigo o crachá da antiga empresa. Observou-o por alguns segundos e sorriu. Percebeu que perder o emprego havia sido, paradoxalmente, o que lhe permitiu encontrar a própria vida.
E, pela primeira vez em muito tempo, Augusto não sentia falta da rotina que um dia pensou ser insubstituível.
Augusto passou a notar que o dinheiro não chegou como um simples recurso — ele chegou como uma lente. Uma lente que ampliava certas coisas e distorcia outras.
Antes, ele era invisível. Não no sentido literal, mas naquela forma silenciosa em que a sociedade aprende a não ver quem não tem poder de compra, influência ou status. Durante anos, ele esteve presente em filas, repartições, ônibus e corredores — sempre correto, sempre educado — e, ainda assim, facilmente ignorado. Agora, com a notícia do prêmio circulando, algo havia mudado de forma inquietante.
“Então era isso”, pensava ele, sentado na varanda ao entardecer. “Eu não mudei. O mundo ao meu redor é que decidiu me enxergar.”
O dinheiro, refletia, não criava virtudes nem defeitos — ele os revelava, tanto nos outros quanto nele próprio. Pessoas que antes mal lembravam seu nome agora o chamavam com entusiasmo exagerado. Convites surgiam. O tom de voz mudava. Havia sempre um interesse implícito, mesmo quando cuidadosamente disfarçado de gentileza.
Isso o incomodava menos pelo oportunismo em si e mais pela constatação do que vinha antes: a indiferença.
“Se a atenção pode ser comprada, então o que exatamente ela vale?”, questionava-se.
Ele começou a perceber que a súbita mudança social não era apenas externa. Havia um deslocamento interno acontecendo. Em certos momentos, sentia-se tentado a corresponder às expectativas que o dinheiro parecia impor — como se agora precisasse ocupar um novo papel, falar de determinada forma, frequentar certos lugares.
E isso o assustava.
“Se eu deixar, o dinheiro não só muda como me veem… muda como eu me vejo.”
Augusto entendeu que o maior risco não era perder o dinheiro, mas perder a referência de quem ele era antes dele. Porque, na vida de quem sempre teve recursos limitados, cada conquista vinha acompanhada de esforço, cada escolha tinha peso real. O dinheiro, agora abundante, suavizava as consequências — e isso, paradoxalmente, podia tornar tudo mais vazio.
Outra coisa o inquietava profundamente: os relacionamentos.
Ele começou a separar, quase como um exercício silencioso, as pessoas em categorias que nunca quis criar. Quem estava ali antes. Quem chegou depois. Quem pedia. Quem oferecia. Quem olhava nos olhos — e quem olhava para o que ele poderia dar.
Mas essa divisão também o incomodava, porque trazia um tipo de desconfiança constante.
“O dinheiro me tirou da invisibilidade… mas será que também me tirou a capacidade de confiar sem cálculo?”
Ainda assim, havia um lado luminoso em tudo aquilo. Pela primeira vez, Augusto tinha liberdade. Liberdade real. Não apenas de comprar coisas, mas de escolher. Escolher onde estar, com quem estar, o que fazer com o próprio tempo.
E, pouco a pouco, sua reflexão se tornou mais clara:
“O dinheiro não é um fim. Ele é um amplificador. Ele amplia o que já existe — dentro e fora.”
Se a pessoa carrega vazio, o dinheiro amplia esse vazio.
Se carrega generosidade, ele amplia o alcance dela.
Se carrega insegurança, ele pode transformá-la em isolamento.
Naquela mesma varanda, olhando o movimento simples da rua — crianças correndo, vizinhos conversando — Augusto chegou a uma conclusão que não era confortável, mas era honesta:
“Ser invisível doía. Mas ser visto pelos motivos errados também tem um preço.”
A diferença, agora, era que ele podia escolher como responder a isso.
E então decidiu algo que guiaria seus próximos anos: não usaria o dinheiro para se tornar alguém novo, mas para proteger — com mais consciência — aquilo que sempre teve valor e quase ninguém via.
Porque, no fim, percebeu que a maior riqueza que poderia perder não estava na conta bancária.Estava na forma como ele se reconhecia no espelho.
As reflexões de Augusto têm um potencial quase inevitável de levá-lo ao afastamento social — não por arrogância, mas por lucidez incômoda.
Quando alguém passa a enxergar certos mecanismos sociais com clareza, torna-se difícil “desver”. Augusto começou a perceber que muitas interações, que antes pareciam neutras ou naturais eram, na verdade, mediadas por interesse, aparência e conveniência. O problema não é apenas a existência disso — que é, em certa medida, humana — mas a constatação de que esses critérios frequentemente se sobrepõem ao valor genuíno das pessoas.
Essa percepção cria um ruído interno. Conversas triviais passam a soar ensaiadas. Elogios parecem carregados de segundas intenções. Relações novas exigem um esforço constante de interpretação: “isso é sincero ou estratégico?”. Esse tipo de vigilância emocional cansa — e o cansaço afasta.
Além disso, Augusto agora carrega uma espécie de “consciência social ampliada”. Ele não consegue mais participar com a mesma leveza, de ambientes onde status, consumo e aparência são tratados como medidas de valor humano. O que antes era apenas cenário, agora se torna incômodo ético.
E aí surge um ponto delicado: o risco de generalização.
Ao identificar padrões de hipocrisia, ele pode começar a enxergá-los em tudo e em todos. Isso pode levá-lo a um isolamento progressivo, não porque todas as pessoas sejam superficiais ou interesseiras, mas porque sua régua interna ficou mais rígida — talvez até defensiva.
Existe também um mecanismo psicológico importante aí: afastar-se pode parecer uma forma de preservar autenticidade. Como se ele dissesse, ainda que silenciosamente:
“Se o jogo é esse, prefiro não jogar.”
Mas toda escolha tem um custo. O isolamento pode proteger da frustração, mas também limita experiências genuínas que ainda existem — embora sejam mais raras, ou menos óbvias.
Outro fator é o deslocamento de identidade. Augusto não pertence mais completamente ao mundo de antes, mas também não se reconhece no novo. Esse “entre-lugar” social pode gerar uma sensação de não pertencimento que reforça o afastamento.
No entanto, há uma diferença crucial entre afastamento consciente e isolamento reativo.
Se Augusto se afasta por desprezo ou desilusão total, ele corre o risco de endurecer — transformando sua percepção crítica em cinismo. Mas se ele usa essa clareza para selecionar melhor suas conexões, pode construir uma vida social menor em quantidade, porém mais consistente em qualidade.
A chave está em reconhecer que, embora a sociedade muitas vezes valorize o que é superficial, isso não anula a existência de relações autênticas. Elas apenas exigem mais discernimento — e, talvez, mais vulnerabilidade para serem encontradas.
No fim, o distanciamento de Augusto não precisa ser um rompimento com o mundo, mas uma reorganização de como ele se insere nele.
Porque enxergar a hipocrisia pode afastar — mas também pode ensinar a escolher melhor onde ficar.
O dinheiro não tornou tudo mais fácil — apenas tornou tudo mais explícito. Foi com essa constatação que Augusto começou a escrever. Não por ambição literária, nem por desejo de reconhecimento, mas por uma necessidade quase íntima de organizar aquilo que havia compreendido.
O pequeno tratado nasceu em silêncio, nas manhãs longas em que ele já não precisava correr. Sentado à mesa simples de casa, escrevia como quem conversa consigo mesmo, tentando dar forma a ideias que antes eram apenas desconfortos difusos.
Primero definira o conteúdo, depois perdera-se em conjeturas para encontrar um título que resumisse, sinteticamente, seus escritos. Algum tempó levou em busca de um nome, finalmente, entre tantos, agarrou-se a um, que lhe pareceu mais fidedigno aos aforismosque norteavam suas ideias: "GUIA PARA REVELAR O O PODER OCULTO DO DINHEIRO".
Ou seria melhor, apenas "O PODER OCULTO DO DINHEIRO"? Sim... Expressava, certamente, com fidelidade, suas reflexões.
Ele começou com uma afirmação direta:
“O dinheiro não transforma relações. Ele revela sua estrutura.”
Para Augusto, as relações humanas sempre estiveram atravessadas por forças invisíveis — necessidade, interesse, medo, admiração, conveniência. O dinheiro, ao entrar em cena de forma abundante, não cria essas forças, mas remove o disfarce que as tornava socialmente aceitáveis.
Em outro trecho, ele escreveu:
“A escassez ensina a valorizar. A abundância testa o que, de fato, tem valor.”
Ele refletia que, quando tudo é limitado, as escolhas carregam peso.
Há um vínculo quase inevitável entre esforço e significado. Mas, quando os limites desaparecem, surge uma questão mais difícil: o que ainda importa quando quase tudo é possível?
Augusto percebeu que muitas pessoas ao seu redor não sabiam lidar com essa pergunta — e talvez ele mesmo ainda estivesse aprendendo.
Sobre o poder, suas palavras eram cautelosas:
“O poder não está apenas em possuir recursos, mas em influenciar comportamentos — inclusive os próprios.”
Ele notava que o dinheiro alterava dinâmicas sutis: pessoas cediam mais facilmente, ouviam com mais atenção, discordavam com mais cuidado. Isso poderia ser conveniente, mas também perigoso. Porque, aos poucos, a realidade começava a se curvar — não à verdade, mas à posição de quem fala.
E então ele se perguntou:
“Se ninguém me contraria com honestidade, como saberei quando estou errado?”
Esse foi um dos pontos centrais do tratado: o dinheiro pode isolar não pela ausência de pessoas, mas pela ausência de franqueza.
Sobre valores sociais, Augusto foi mais incisivo:
“Uma sociedade que mede valor humano por sinais externos de sucesso não apenas é injusta — é frágil.”
Ele argumentava que, quando o reconhecimento depende de status, riqueza ou aparência, ele deixa de ser um reflexo de quem a pessoa é e passa a ser um reflexo do que ela representa. E isso, para ele, era uma forma sofisticada de desumanização.
Ainda assim, seu texto não era amargo. Havia uma tentativa clara de equilíbrio. Em certo ponto, ele escreveu:
“Não se trata de rejeitar o dinheiro, mas de recusar sua autoridade sobre o sentido das coisas.”
O tratado não trazia soluções grandiosas, nem pretendia reformar o mundo. Era, acima de tudo, um mapa pessoal — uma tentativa de não se perder em meio àquilo que poderia facilmente desorientá-lo.
Nas últimas páginas, Augusto deixou uma reflexão que, para ele, sintetizava tudo:
“A verdadeira medida de valor talvez esteja naquilo que permanece quando o dinheiro deixa de ser relevante — seja por falta, seja por excesso.”
Quando terminou de escrever, não sentiu triunfo. Sentiu clareza. E isso, percebeu, era mais raro — e mais útil — do que qualquer fortuna.
Mario Moura
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QUANDO EU CRESCER...
Ele tinha vinte e oito anos, mas ainda dizia “quando eu crescer” com uma naturalidade quase comovente.
O nome dele era Rafael, embora poucos o chamassem assim. Entre os amigos — os mesmos desde o ensino médio — ele era apenas Rafa. E naquele pequeno universo que insistia em preservar, o tempo parecia não ter avançado. As conversas ainda giravam em torno de memes, jogos, planos vagos e promessas que nunca ultrapassavam a madrugada.
Rafa morava no mesmo quarto desde os quinze. As paredes, ainda cobertas de pôsteres desbotados, guardavam uma espécie de resistência silenciosa contra o mundo lá fora. A cama desarrumada, o videogame ligado por horas, a pilha de roupas que nunca chegava ao armário — tudo conspirava para manter intacta uma adolescência que já não lhe cabia.
Sua mãe, cansada de repetir as mesmas perguntas, já não perguntava mais. O pai, quando aparecia na porta do quarto, apenas suspirava — um som breve, pesado, que dizia mais do que qualquer discurso.
— Você não acha que já está na hora? — ele disse uma vez, sem especificar exatamente o quê. A que momento se referia, embora fosse óbvio...
Rafa riu.
— Hora de quê?
E voltou os olhos para a tela.
Não era exatamente preguiça. Nem incapacidade. Era uma espécie de recusa íntima, quase filosófica. Crescer, para ele, parecia uma traição. Uma adesão silenciosa a um pacto que nunca assinara: acordar cedo, trabalhar em algo que não amava, pagar contas, fingir maturidade em conversas vazias.
Ele via os outros — antigos colegas agora com empregos, filhos, boletos — e sentia uma mistura de estranhamento e superioridade. Como se tivesse descoberto algo que eles não perceberam.
— Vocês viraram adultos — dizia, meio rindo, meio sério. — Eu não.
Mas havia momentos, breves e perigosos, em que o silêncio se tornava mais denso. Quando a casa dormia. Quando o videogame desligava. Quando o celular não vibrava.
Nesses intervalos, Rafa percebia pequenas fissuras.
O corpo já não respondia com a mesma leveza. Os amigos começavam a desaparecer em compromissos. As conversas ficavam mais curtas. Os convites, mais raros.
E havia também aquele incômodo difícil de nomear — uma sensação de estar parado enquanto tudo ao redor seguia.
Certa madrugada, olhando o teto, ele se lembrou de si mesmo aos dezessete anos. Lembrou da pressa que tinha de viver, da ansiedade pelo futuro, das ideias grandiosas que pareciam inevitáveis.
“O que aconteceu?”, pensou.
Mas afastou o pensamento como quem fecha uma janela em dia de vento.
No dia seguinte, acordou ao meio-dia. Ligou o videogame. Pediu comida. Riu de vídeos curtos. Respondeu mensagens sem profundidade.
A rotina era confortável. Familiar. Protegida.
Ainda assim, algo havia mudado.
Não fora o mundo — esse já vinha mudando há muito tempo.
Era ele que, pela primeira vez, começava a perceber o peso da escolha que fazia todos os dias: permanecer.
E permanecer, descobriu aos poucos, também era uma forma de movimento — só que em direção oposta.
Naquela noite, quando o pai passou pela porta do quarto, Rafa não fingiu não ouvir.
— Pai — chamou, antes que ele fosse embora.
O homem parou, surpreso.
— Oi, filho...
Silêncio. Rafa hesitou. Olhou ao redor, não como se visse o quarto pela primeira vez, mas com a insólita sensação de se perceber como um estranho, alguém exilado em um mundo desconhecido.
— Como é que a gente… começa?
O pai não respondeu de imediato. Apenas entrou, sentou-se na beira da cama e, por um instante, ambos ficaram em silêncio — não o silêncio vazio das madrugadas, mas um outro, mais denso, quase inaugural.
Rafa não havia crescido ainda.
Mas, talvez pela primeira vez, deixara de se recusar. Algo se quebrara, sem ruído, sem alarde... Iniciava-se a coleta dos cacos.
mario moura
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O barulho nunca ia embora.
Não era o das sirenes — esse ele já nem ouvia mais. Nem o estampido seco dos disparos, que seu corpo aprendera a absorver antes mesmo que a mente pudesse reagir. O som que persistia era outro: um eco irregular, feito de vozes interrompidas, passos apressados, pedidos de socorro que chegavam tarde demais.
O nome dele era Augusto, inspetor há mais de quinze anos. O tipo de homem que, à primeira vista, parecia sólido — postura firme, olhar contido, poucas palavras. Mas por dentro, havia algo em constante desgaste, como uma peça girando sem descanso.
Ele não sonhava. Ou melhor, não dormia o suficiente para que os sonhos se organizassem. Quando fechava os olhos, vinham fragmentos. Um rosto. Um corredor mal iluminado. Um grito. Sempre incompleto. Sempre inacabado.
Na delegacia, era respeitado. Resolvia casos. Sabia onde procurar, o que perguntar, quando pressionar. Não hesitava. Não tremia. Não desviava o olhar.
— Você tem sangue frio — disse um colega certa vez, admirado.
Augusto não respondeu. Sabia que não era frieza. Era saturação.
A cidade lhe mostrava o pior todos os dias. Corpos descartados em terrenos baldios. Crianças com medo demais para chorar. Histórias que se repetiam com pequenas variações, como se a violência tivesse um roteiro próprio, insistente.
E havia algo pior do que ver. Era remoer os destroços, as sobras, era mastigar pequenas emoções, que se sente repentinamente, diante da desconstrução da vida.
Era lembrar. E como doía lembrar...
Ele lembrava de tudo. Não conseguia escapar das assombrações que perseguiam sua mente. Não havia portas abertas para paisagens amenas.
Não como narrativa — começo, meio e fim —, mas como estilhaços, cacos de um espelho quebrado. Um detalhe insignificante que não devia importar, mas ficava. O sapato de uma vítima fora do lugar. A televisão ainda ligada numa casa vazia. Um relógio parado na hora exata em que tudo terminou.
Os pequenos indícios que antecederam a crueldade, que contavam mais do que as tragédias em si, e tinham a permanência insistente dos resíduos que assinalam as maldades, o caráter sombrio da perversidade, do sadismo.
Não sabia como entender os segredos doentios da alma humana, se devia compadecer-se ou condenar. Era tomado por pensamentos paradoxais...
Esses detalhes voltavam sem aviso, no meio de uma conversa, durante um café, ao parar no sinal. Assombrava-se muitas vezes com a possibilidade de sentir odores de corpos inertes e ensanguentados. Tinha medo de ser traído pela possibilidade desses odores chegarem a ele.
E, às vezes, vinham acompanhados de uma pergunta silenciosa:
“Em que momento isso deixou de me afetar?”
A resposta nunca vinha.
Certa noite, após uma ocorrência particularmente brutal, Augusto voltou para casa mais tarde que o habitual. Lavou as mãos demoradamente, como sempre fazia, embora soubesse que não havia sujeira visível.
Sentou-se no sofá. A televisão piscava imagens que ele não via.
Foi então que percebeu algo diferente.
Silêncio.
Não o silêncio da ausência de som, mas a ausência momentânea daquele eco interno que o perseguia. Um vazio breve, quase impossível.
Durou poucos segundos.
Logo, uma memória se impôs — nítida, intrusiva.
Um garoto. Não devia ter mais de dez anos. Olhos arregalados. Não de dor, mas de surpresa. Como se não entendesse o que estava acontecendo.
Augusto fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar a imagem para longe.
Mas ela não obedecia mais. Ganhara vida própria.
Passou as mãos na vasta cabeleira grisalha, murmurando palavras ininteligíveis, para ninguém.
Levantou-se abruptamente, caminhou pela casa, abriu janelas, respirou fundo. O ar da madrugada era pesado, mas ainda assim diferente daquele que carregava dentro de si.
Naquele instante, algo lhe ocorreu — não como solução, mas como constatação:
Ele não estava apenas lembrando. Estava sendo habitado por tudo aquilo.
A violência não ficava nas ruas, nem nos relatórios, nem nos arquivos encerrados. Ela encontrava espaço. Instalava-se. Permanecia. Apossava-se dos seus sentidos, do seu espírito, derramava-se como água, invadindo todos os recantos da sua memória.
Ele, de alguma forma, havia permitido, sem se dar conta de que durante anos construira um cotidiano de violência. Tecera a trama de um vasto painel de sofrimento e angústia.
Ou talvez não houvesse escolha.
No dia seguinte, voltou ao trabalho.
A rotina o esperava, intacta. Chamados, relatórios, urgências. O mundo não pausava para que ele reorganizasse o que estava quebrado.
Mas algo havia se deslocado, ainda que minimamente.
Quando entrou na sala de interrogatório, não foi o suspeito que chamou sua atenção primeiro.
Foi o espelho.
Por um breve instante, viu a si mesmo — não como o policial experiente, eficiente, respeitado, temido.
Mas como alguém cansado. Profundamente cansado.
E, talvez pela primeira vez, essa percepção não veio acompanhada de resistência.
Augusto puxou a cadeira, sentou-se e apoiou as mãos sobre a mesa.
Lá fora, a cidade continuava produzindo histórias que ele ainda ouviria.
Mas ali, naquele espaço pequeno e fechado, ele percebeu que havia outra investigação em curso — uma que não constava em nenhum relatório.
E dessa, ele ainda não sabia como sair.
mario moura
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Analice Vieira era um nome que ocupava vitrines, listas de mais vendidos e mesas de debates literários. Seus romances eram conhecidos pela precisão emocional, pela forma como capturavam silêncios, ausências, aquilo que não se dizia. Diziam que ela escrevia como quem escuta algo muito antigo.
Ninguém sabia exatamente o quê.
No apartamento amplo, de janelas altas voltadas para a cidade, Analice mantinha uma rotina disciplinada. Café às seis, leitura às sete, escrita às oito. Às nove, o primeiro bloqueio.
Ela o reconhecia como se fosse uma visita antiga — não inesperada, mas nunca bem-vinda.
Sentava-se diante da página em branco e esperava. Às vezes, uma frase surgia, hesitante. Duas, talvez. Mas logo algo se impunha, não como pensamento, mas como presença.
Uma memória.
Não vinha inteira. Nunca vinha. Era sempre um fragmento — uma porta entreaberta, o cheiro de madeira antiga, um som abafado que não conseguia nomear. E, sobretudo, uma sensação: a de estar presa em um tempo que não avançava.
Analice afastava-se da mesa, caminhava pela casa, tentava reorganizar o corpo no presente. Mas a lembrança não obedecia a limites. Instalava-se com uma familiaridade cruel, como se tivesse direito àquele espaço.
Ela aprendera, ao longo dos anos, a contornar. A transformar. Seus primeiros livros nasceram assim — deslocando aquilo que não podia ser dito diretamente para personagens, cenários, conflitos que, à primeira vista, pareciam distantes.
O público chamava de talento. A crítica, de profundidade.
Mas, com o tempo, algo mudou.
As histórias começaram a resistir.
Os personagens paravam no meio do caminho, como se também evitassem atravessar certos territórios. Os enredos se desmanchavam antes de alcançar o ponto de tensão. E Analice, que antes encontrava saídas na ficção, agora se via cercada.
Certa manhã, escreveu uma cena que não reconheceu como sua.
Uma menina parada diante de uma porta. A mão suspensa no ar, indecisa. O texto não avançava, mas também não retrocedia. Ficava ali, fixo, como uma fotografia.
Analice leu e releu.
Havia algo diferente.
Não era metáfora. Não era deslocamento. Era direto demais.
Ela fechou o laptop com brusquidão.
O coração acelerado não correspondia ao gesto simples. Era como se o corpo tivesse entendido algo antes da mente.
Passou o dia evitando voltar àquela cena. Ligou para a editora, respondeu e-mails, tentou ocupar o tempo com tarefas menores. Mas, por trás de tudo, havia uma espécie de insistência silenciosa.
À noite, sem conseguir dormir, abriu novamente o arquivo.
A menina ainda estava lá.
Esperando.
Analice aproximou-se da tela com cautela, como quem se aproxima de algo vivo. Seus dedos pairaram sobre o teclado.
E então percebeu: o que a paralisava não era a falta de história.
Era a proximidade.
Durante anos, ela escrevera em torno daquilo. Nunca através.
Sempre houvera uma distância segura — personagens que carregavam dores semelhantes, mas nunca idênticas; cenários que diluíam o impacto; finais que ofereciam algum tipo de resolução, ainda que parcial.
Agora, essa distância desaparecera.
A memória não aceitava mais ser transformada.
Queria ser vista.
Analice respirou fundo, sentindo o peso daquela constatação.
Escrever sempre fora, para ela, uma forma de controle — escolher palavras, organizar o caos, dar forma ao informe. Mas havia algo naquela experiência que resistia à linguagem. Algo que escapava, que não se deixava capturar sem distorção.
Talvez fosse por isso que voltava.
Não por insistência cruel, mas por inacabamento.
Ela começou a digitar.
Não com a segurança de antes, nem com a fluidez que a tornara conhecida. As frases vinham irregulares, por vezes truncadas, como se precisassem atravessar uma matéria densa antes de se formar.
A menina tocou a porta.
Analice parou.
O gesto, tão simples na superfície, carregava um peso desproporcional. Ela sabia disso. Sentia isso.
Mas, pela primeira vez, não recuou.
Continuou.
As palavras não resolviam. Não explicavam. Não suavizavam. Mas também não fugiam.
E, naquele processo imperfeito, algo começou a se deslocar.
Não era alívio. Nem superação.
Era, talvez, um tipo diferente de presença.
Menos invasiva. Mais nomeável.
Quando o sol começou a nascer, Analice ainda estava escrevendo. O texto à sua frente não se parecia com nada que ela já tivesse publicado. Não havia ali o acabamento que o público esperava, nem a elegância que a crítica elogiava.
Mas havia algo novo.
Uma espécie de honestidade que não dependia de forma.
Ela recostou-se na cadeira, exausta.
Sabia que aquele livro não seria fácil. Nem para ela, nem para quem o lesse.
Mas também sabia que, pela primeira vez em muito tempo, não estava apenas evitando.
Estava atravessando.
E talvez — pensou, fechando os olhos por um instante — fosse esse o começo real de sua escrita.
mario moura
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TRAIÇÃO
O primeiro indício foi o silêncio.
Não o silêncio comum — aquele que se instala com o cansaço do dia —, mas um outro, mais denso, quase calculado. Clara percebeu numa terça-feira qualquer, enquanto os dois jantavam. Henrique respondia às perguntas com frases curtas, como se cada palavra fosse pesada antes de sair.
— Está tudo bem? — ela perguntou.
— Está — respondeu ele, sem levantar os olhos.
E voltou ao prato.
Nos dias seguintes, vieram outros sinais. O celular que antes ficava esquecido sobre a mesa passou a acompanhá-lo até o banheiro. As notificações, antes abertas sem pressa, agora eram apagadas com rapidez. As chegadas tardias, justificadas por reuniões que Clara não conseguia confirmar.
Nada concreto. Apenas pequenas distorções.
Mas Clara sempre acreditara que a verdade não se revelava nos grandes gestos — e sim nas mínimas alterações de ritmo.
Uma noite, enquanto Henrique tomava banho, o celular vibrou sobre a cama.
Ela hesitou.
Não era a primeira vez que sentia vontade de olhar. Mas até então, havia resistido. Havia algo de definitivo naquele gesto, como cruzar uma linha invisível.
O aparelho vibrou novamente.
Na tela, apenas um nome: “L.”
Sem foto. Sem contexto.
Clara sentiu um frio preciso, quase cirúrgico.
Pegou o celular.
A conversa estava aberta. Não havia mensagens explícitas, nenhuma confissão, nenhum vestígio inequívoco. Mas havia um tom. Um tipo de intimidade difícil de nomear.
“Você chegou bem?”
“Sim. E você?”
“Agora sim.”
Clara leu e releu. As palavras eram neutras, mas havia algo entre elas — um espaço carregado, como se dissessem mais do que mostravam.
Ela devolveu o celular ao lugar exatamente como estava.
Quando Henrique saiu do banho, encontrou Clara sentada na beira da cama.
— Quem é L.? — ela perguntou, sem rodeios.
Ele parou por um instante. Apenas um segundo — mas foi suficiente.
— Uma colega do trabalho.
— Colega de quê?
— De projeto.
A resposta veio rápida demais.
Clara assentiu lentamente.
— Vocês se falam bastante.
Henrique deu de ombros.
— Coisa de trabalho.
O silêncio que se seguiu não era mais o mesmo de antes. Havia agora uma tensão que não se dissipava, como um fio esticado ao limite.
Nos dias seguintes, Clara passou a observar.
Não confrontava. Não acusava. Apenas reunia fragmentos.
O perfume diferente na camisa. A mudança súbita de humor. A atenção dispersa.
E, ao mesmo tempo, havia momentos em que Henrique parecia exatamente o mesmo de sempre — presente, atento, até carinhoso.
Essa oscilação era o que mais a desestabilizava.
Se houvesse certeza, haveria também uma direção.
Mas a dúvida… a dúvida se espalhava.
Certa noite, ele voltou mais tarde do que o habitual. Disse que o trânsito estava ruim. Clara não respondeu.
Enquanto ele se movia pela casa, tirando os sapatos, largando as chaves, ela o observava como se fosse um estranho que tentava imitar alguém conhecido.
— Você não vai dizer nada? — ele perguntou, por fim.
Clara levantou-se devagar.
— Eu não sei o que dizer — respondeu.
E era verdade.
Porque qualquer acusação exigia uma prova que ela não tinha.
E qualquer absolvição exigia uma confiança que já não possuía.
Na madrugada, Clara acordou com um movimento ao lado.
Henrique não estava na cama.
Levantou-se em silêncio e caminhou até a sala.
A luz do celular iluminava o rosto dele. Ele estava de costas, mas a postura era inequívoca — inclinado, concentrado, como quem fala baixo para não ser ouvido.
Clara não avançou.
Ficou parada no corredor, na fronteira entre ver e não ver.
O coração batia rápido, mas não havia pânico. Havia uma clareza estranha.
Ela poderia dar mais um passo. Poderia ouvir. Poderia, finalmente, saber.
Mas também sabia que o que encontrasse ali — qualquer que fosse — não devolveria o que já havia sido perdido.
Recuou.
Voltou para o quarto.
Deitou-se novamente, olhando o teto escuro.
Quando Henrique retornou, minutos depois, ela manteve os olhos fechados.
Na manhã seguinte, o café foi silencioso.
Henrique tentou iniciar uma conversa trivial. Clara respondeu com a mesma neutralidade que ele usara dias antes.
— Você está estranha — ele disse, por fim.
Clara o encarou.
Por um instante, pensou em perguntar tudo. Em exigir respostas, em expor cada detalhe, cada indício.
Mas as palavras não vieram.
No lugar delas, surgiu uma pergunta diferente — uma que não dependia dele.
— Se eu te perguntasse — começou, com a voz calma — você diria a verdade?
Henrique sustentou o olhar.
— Diria.
Ela assentiu.
Mas não perguntou.
O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era uma decisão.
Naquela noite, enquanto arrumava uma mala pequena, Clara percebeu que a dúvida tinha se tornado mais pesada do que qualquer certeza possível.
Não importava mais se houve traição.
O que importava era que ela já não conseguia habitar aquele espaço sem se fragmentar.
Henrique a observava da porta, confuso, inquieto.
— Você vai embora por causa de uma suspeita? — perguntou.
Clara fechou a mala.
Pensou por um instante.
— Não — respondeu. — Eu vou embora por causa da dúvida.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, não havia hesitação em sua voz.
A porta se fechou atrás dela com um som seco, definitivo.
Do lado de dentro, Henrique ficou parado, cercado por respostas que talvez nunca precisasse dar.
E do lado de fora, Clara caminhou sem olhar para trás — não porque tivesse certeza, mas porque, finalmente, aceitara que talvez nunca tivesse.
mario moura
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Quando o primeiro livro saiu, disseram que era original.
Quando o segundo veio, disseram que era voz.
No terceiro, já falavam em estilo — algo raro, quase impossível de fabricar.
E foi exatamente aí que Daniel começou a desconfiar.
Não de si mesmo como escritor, mas de si como origem.
A suspeita não surgiu como uma ideia clara. Veio como um ruído — um incômodo leve, quase imperceptível, que se infiltrava enquanto escrevia. Uma sensação de déjà vu, mas não de algo vivido. De algo... captado.
Ele estava acostumado ao processo: sentar, esperar, e então, de algum lugar indefinido, as frases vinham. Não como esforço, mas como recepção. Sempre fora assim.
Mas, com o tempo, aquilo deixou de parecer natural.
Certa noite, escrevendo uma cena crucial de seu novo romance, Daniel parou no meio de um parágrafo. Não por falta de palavras, mas por excesso de familiaridade.
Ele conhecia aquela cena.
Não no sentido de tê-la criado, mas de tê-la reconhecido.
Um homem numa estação vazia, segurando uma carta que nunca seria entregue. A descrição era precisa demais, carregada de uma melancolia que não parecia construída — parecia lembrada.
Daniel fechou o laptop lentamente.
— De onde veio isso? — murmurou.
A pergunta não encontrou resposta.
Nos dias seguintes, começou a reler suas próprias obras com um olhar diferente. Não como autor, mas como investigador.
Buscava padrões.
Repetições.
Fragmentos que pudessem indicar uma fonte externa.
E encontrou.
Personagens que apareciam com variações mínimas em livros diferentes. Situações que ecoavam outras, como se fossem versões de uma mesma história tentando se contar de formas distintas.
Era sutil. Mas persistente.
Como um sinal atravessando frequências.
A ideia, então, tomou forma:
E se ele não estivesse criando?
E se estivesse apenas sintonizando?
A hipótese parecia absurda à primeira vista. Mas, quanto mais pensava, mais coerente se tornava.
O cérebro como receptor. A mente como antena.
E o que ele chamava de imaginação seria, na verdade, uma espécie de escuta.
Uma captação de narrativas dispersas — memórias coletivas, desejos não realizados, histórias que nunca foram escritas, mas que insistiam em existir.
Daniel tentou resistir à ideia.
— É só inspiração — disse a si mesmo. — Todo escritor sente isso.
Mas a explicação não o satisfazia mais.
Porque inspiração não explicava a precisão.
Nem a recorrência.
Nem aquela estranha sensação de que algumas passagens já estavam prontas antes mesmo de ele começar a escrevê-las.
Decidiu testar.
Durante uma semana, não escreveu nada. Evitou qualquer contato com livros, filmes, conversas profundas. Queria silenciar o suposto “sinal”.
Nos primeiros dias, sentiu apenas vazio.
Depois, inquietação.
E então, na quinta noite, aconteceu.
Estava deitado, no escuro, quando uma imagem surgiu — nítida, completa.
Uma mulher caminhando por uma cidade inundada. Não havia pânico, apenas aceitação. Ela carregava uma mala pequena, como se soubesse que não havia mais para onde ir.
Daniel levantou-se imediatamente.
— Não — disse em voz alta.
Mas a imagem não se dissipou.
Pelo contrário — ganhou detalhes. Sons. Cheiros.
Era como assistir a algo que já estava acontecendo em algum outro lugar.
Ele caminhou até o escritório, mas não abriu o laptop.
Ficou parado diante da mesa, respirando fundo.
Se escrevesse, estaria confirmando.
Se não escrevesse, estaria negando algo que claramente existia.
A dúvida se instalou com força total.
Nos dias seguintes, as “captações” se intensificaram.
Cenas surgiam sem aviso. Diálogos completos, com vozes distintas. Histórias que pareciam pedir passagem.
E Daniel, cada vez mais, sentia que não era o autor.
Era o meio.
Essa percepção começou a afetar tudo.
Entrevistas tornaram-se desconfortáveis. Como explicar um processo que ele mesmo já não compreendia? Como reivindicar autoria de algo que talvez não lhe pertencesse?
— De onde vêm suas ideias? — perguntavam.
Ele sorria, evasivo.
— De muitos lugares.
Era a resposta mais honesta que conseguia dar.
Mas, por dentro, a pergunta ecoava com outra intensidade:
De quem são essas histórias?
Certa madrugada, exausto, decidiu confrontar a questão de forma definitiva.
Sentou-se à mesa.
Abriu um documento em branco.
E escreveu:
“Se eu não sou o autor, então quem escreve através de mim?”
A pergunta ficou ali, pulsando na tela.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então, lentamente, as palavras começaram a surgir.
Não como antes — fluidas e naturais —, mas com uma resistência estranha, como se algo precisasse atravessar uma barreira.
“Você já sabe.”
Daniel congelou.
As mãos pairaram sobre o teclado.
O coração acelerou.
Ele não lembrava de ter pensado aquela frase.
Mas ela estava ali.
Continuou.
“Você sempre soube.”
Daniel recuou na cadeira.
O quarto parecia menor.
O ar, mais denso.
— Isso sou eu — disse, tentando se convencer.
Mas a frase seguinte surgiu antes que pudesse formular qualquer pensamento.
“Somos muitos.”
Ele fechou o laptop com força.
O som ecoou no silêncio da casa.
Ficou ali, imóvel, tentando reorganizar a própria percepção.
Era impossível.
Se aquilo era fruto de sua mente, então sua mente era mais vasta — e mais fragmentada — do que imaginava.
Se não era… então a alternativa era ainda mais perturbadora.
Na manhã seguinte, Daniel não abriu o computador.
Nem no dia seguinte.
Nem no outro.
As histórias continuavam vindo.
Mas ele não as registrava mais.
Com o tempo, começaram a se dissipar — como sinais que perdem força quando não encontram receptor.
Meses depois, seu editor ligou.
— Precisamos do novo livro.
Daniel hesitou.
Olhou para o escritório, agora silencioso.
Para a mesa vazia.
Para o laptop fechado.
— Acho que… — começou, mas não terminou.
Porque, naquele instante, uma nova imagem surgiu.
Mais forte do que todas as anteriores.
Um homem sentado diante de uma página em branco, tentando decidir se escreve ou não.
Daniel sentiu um arrepio.
A cena era detalhada demais.
Familiar demais.
Ele entendeu.
Lentamente, caminhou até a mesa.
Abriu o laptop.
E, antes mesmo de começar a digitar, teve a estranha — e inevitável — sensação de que aquela história já estava sendo contada.
Em algum lugar.
Por alguém.
Ou por muitos.
mario moura
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O frade Thomás não escolheu Judas.
Foi Judas quem permaneceu no seu imaginário religioso, após a leitura da eterna traição.
No mosteiro, as leituras seguiam o ciclo das horas, como sempre haviam seguido. Salmos, cartas, evangelhos. As palavras repetidas moldavam o tempo, davam-lhe contorno e ritmo. Thomás conhecia cada passagem como quem reconhece um caminho já percorrido muitas vezes.
Mas, havia meses, algo se desviara.
Toda vez que o nome surgia — Judas —, não era apenas mais um personagem na narrativa sagrada. Havia uma pausa, quase imperceptível, um intervalo que não existia antes. Como se aquela palavra abrisse uma fresta.
No início, Thomás resistiu.
Não por falta de fé, mas por excesso dela. Sabia o lugar de Judas na tradição: o traidor, o que vendeu o Mestre, o que não suportou o peso do próprio ato.
Era simples.
Ou deveria ser.
Mas a simplicidade começou a incomodá-lo.
Certa tarde, durante a leitura solitária no scriptorium, deteve-se em uma frase que sempre lhe parecera secundária: “E Judas saiu, e era noite.”
Thomás repetiu mentalmente.
“Era noite.”
Havia algo ali.
Não uma justificativa — isso ele recusava —, mas uma densidade que nunca havia considerado. Como se aquela noite não fosse apenas externa, mas também interna. Um estado. Uma condição.
Fechou o livro.
Pela primeira vez, não pensou em Judas como função — o traidor necessário —, mas como homem.
E isso complicava tudo.
Nos dias seguintes, passou a buscar as passagens em que Judas aparecia. Lia devagar, quase com cautela, como quem teme alterar algo ao observar com atenção demais.
O que encontrou não foi clareza.
Foi silêncio.
Pouco se dizia sobre ele. Pouco se explicava. E, nesse pouco, cabia quase tudo.
— Por que você faz isso? — perguntou o irmão Mateus, ao perceber a insistência de Thomás.
— Isso o quê?
— Ficar voltando a ele.
Thomás hesitou.
— Não sei — respondeu, por fim. — Talvez porque ninguém mais volte.
Mateus franziu a testa.
— Ele fez o que fez.
— Sim.
— E isso basta.
Thomás assentiu, mas não se convenceu.
Porque, para ele, já não bastava.
Havia uma inquietação que não se dissipava. Não era dúvida sobre a traição — essa permanecia inegável —, mas sobre o modo como ela era compreendida.
E, sobretudo, sobre o lugar que restava para quem falhava.
Numa noite de vigília, enquanto os outros dormiam, Thomás permaneceu na capela. A chama das velas oscilava suavemente, projetando sombras que pareciam se mover por vontade própria.
Ele se ajoelhou.
— Senhor — disse em voz baixa —, não quero justificar o erro.
A frase ficou suspensa.
— Mas também não consigo aceitar que um homem seja apenas o seu pior momento.
O silêncio respondeu.
Ou talvez não tenha respondido.
Thomás fechou os olhos.
E, pela primeira vez, imaginou Judas não no ato da traição, mas depois. No intervalo entre o gesto e a consciência plena do que havia feito.
A percepção.
O peso.
A impossibilidade de voltar atrás.
Sentiu um aperto no peito.
Porque reconheceu algo.
Não a escala, não o evento — mas a estrutura.
A falha humana.
A decisão tomada no escuro.
O arrependimento que chega tarde demais.
Abriu os olhos rapidamente, como se tivesse ido longe demais.
— Não — murmurou. — Não é a mesma coisa.
Mas a distinção já não era tão nítida.
Nos dias que se seguiram, sua oração mudou.
Menos segura. Mais interrogativa.
E, sem perceber, começou a incluir Judas — não como exemplo do que evitar, mas como presença a ser compreendida.
Isso o assustava.
Não pelo que Judas representava, mas pelo que essa aproximação revelava sobre si mesmo.
Certa manhã, o abade o chamou.
— Tenho ouvido coisas — disse, com voz serena.
Thomás abaixou a cabeça.
— Não estou negando nada, padre.
— Eu sei.
O abade caminhou lentamente pelo pequeno aposento.
— Mas você está se aproximando de um terreno delicado.
— Eu sei.
— E por quê?
Thomás demorou a responder.
— Porque… — começou, mas parou.
Como explicar algo que ainda não estava totalmente claro nem para si?
— Porque, se não houver lugar para ele — continuou, finalmente —, não sei se há lugar para nós.
O abade o observou longamente.
Não havia reprovação em seu olhar.
Mas havia preocupação.
— Há coisas que não nos cabe resolver — disse.
Thomás assentiu.
— Talvez.
Saiu dali sem alívio.
Naquela noite, voltou à capela. Não levou livro.
Não levou palavras prontas.
Sentou-se no banco de madeira e permaneceu em silêncio.
Pensou em Judas.
Pensou no beijo.
Pensou na escolha.
E pensou, sobretudo, no que vinha depois.
O arrependimento.
O desespero. A figueira... Ou a olaia, conhecida popularmente como "árvore- de-judas". Finalmente o fim. O enforcamento.
O fim. A maldição eterna...
Mas, dessa vez, não tentou concluir. Não tentou decidir se estava certo ou errado.
Permaneceu na dúvida.
E, pela primeira vez, percebeu que a dúvida não era ausência de fé. Muito ao contrário, era uma forma mais exigente dela.
Ao sair da capela, o céu começava a clarear.
Não era mais noite.
Mas também ainda não era dia. Os primeiros cantos de pássaros dispersos despertavam a madrugada.
Thomás parou por um instante, olhando o horizonte, iniciando o tom de cores que se misturavam numa paisagem de múltiplos desenhos indefinidos. Um lugar mágico, que ocultava um silêncio que o ser humano desconhecia.
E compreendeu que talvez Judas habitasse exatamente ali — nesse intervalo incômodo entre a condenação e a compreensão de um mistério que não se subordinava à razão. Misturava-se a face oculta do sacrifício de Jesus.
Um lugar onde nenhuma resposta era definitiva.
E onde, ainda assim, era preciso permanecer.
mario moura
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E ASSIM A VIDA ACONTECE...
O psicólogo Henrique sempre acreditou que sonhos eram apenas ecos da mente — fragmentos desconexos organizados pelo inconsciente. Era isso que ensinava, repetia e escrevia em seus artigos. Até que os sonhos começaram.
NÃO HÁ O LADO DE FORA...
O psicólogo Dr. Henrique sempre acreditou que sonhos eram apenas ecos da mente — fragmentos desconexos organizados pelo inconsciente. Era isso que ensinava, repetia e escrevia em seus artigos. Até que os sonhos começaram.
Na primeira noite, ele estava em um castelo antigo, cercado por paredes cobertas de hera viva, que sussurrava seu nome. Diante dele, uma mulher vestida de preto chorava em silêncio.
Quando ela levantou o rosto, Dr. Henrique reconheceu imediatamente: era Joana, sua paciente que sofria de ansiedade severa. Mas ali, naquele lugar impossível, ela não parecia frágil — parecia aprisionada.
— Você demorou — disse ela, com voz firme.
— A história não pode continuar sem você.
Dr. Henrique acordou com o coração disparado. Anotou tudo, como fazia com sonhos incomuns. Coincidência, pensou.
Mas na noite seguinte, ele voltou.
O castelo estava diferente. Havia uma porta aberta, que antes não existia. Joana não estava mais lá. Em vez disso, um homem com armadura quebrada caminhava em sua direção. Era Marcos, seu paciente depressivo, que mal conseguia sair da cama, na vida real.
— Eu lutei — disse Marcos, segurando uma espada partida. — Mas não sei contra o quê.
Dr. Henrique começou a perceber um padrão inquietante. A cada noite, o sonho continuava, exatamente de onde havia parado. Era uma narrativa contínua, como se ele estivesse dentro de um livro, que se escrevia sozinho.
E seus pacientes... não eram apenas versões deles mesmos. Eram personagens.
Joana era uma rainha presa por uma maldição invisível. Marcos, um cavaleiro derrotado por batalhas internas que ninguém via. Sofia, sua paciente obsessiva, surgiu como uma alquimista que tentava controlar o tempo — repetindo experimentos infinitamente, incapaz de aceitar erros.
Cada sessão durante o dia, parecia ecoar à noite, mas transformada.
Dr. Henrique começou a notar que aquilo não era apenas simbólico. As escolhas que ele fazia nos sonhos, alteravam o comportamento de seus pacientes na vida real.
Quando ele ajudou Marcos a reconstruir sua espada no sonho, Marcos apareceu na consulta dizendo que, pela primeira vez em meses, conseguiu sair para caminhar.
Quando ele libertou Joana do castelo — ao convencê-la de que a prisão não tinha portas, e por que ela nunca tentou sair?
— Clara começou a questionar seus próprios medos.
Henrique passou a ter medo de dormir.
Porque, aos poucos, percebeu algo ainda mais perturbador: ele também estava mudando.
No sonho, começou a existir uma figura que o observava — um narrador invisível, uma presença que corrigia o rumo das histórias, quando Dr. Henrique interferia demais.
Numa noite, finalmente ouviu a voz:
— Você não é o autor.
— Então o que eu sou? — perguntou Dr. Henrique, sentindo o peso da resposta antes mesmo de ouvi-la.
— Você é só mais um personagem, que se esqueceu disso.
Na manhã seguinte, Dr. Henrique acordou diferente. Seus pacientes estavam lá, como sempre. Mas algo havia mudado em seus relatos.
— Doutor — disse Joana, com um leve sorriso —, eu tive um sonho estranho com um castelo… e você estava lá.
Dr. Henrique ficou em silêncio.
Pela primeira vez, ele não sabia distinguir quem estava ajudando quem — ou se havia, de fato, alguma diferença.
E naquela noite, quando fechou os olhos, ele não entrou na história.
Ele foi chamado por ela.
Naquela noite, Antonio não conseguiu dormir.
Virava de um lado para o outro, como se o corpo recusasse o repouso e a mente se recusasse ao silêncio. As palavras do diário não o deixavam — não como lembranças, mas como presenças. Cada frase parecia continuar sendo pensada dentro dele, como se Dr. Henrique tivesse apenas iniciado raciocínios que agora se completavam em outra consciência.
Ele se sentou na beira da cama, os pés tocando o chão frio.
Algo estava errado.
Não era apenas inquietação. Era uma espécie de chamado sem som.
Levantou-se. Caminhou até a janela.E então viu. As luzes da casa estavam acesas. Não uma. Todas.
A chácara, que durante semanas fora um bloco escuro e silencioso, agora brilhava como se estivesse em pleno funcionamento. Não havia movimento visível, nenhuma sombra passando pelas janelas — apenas a iluminação constante, firme demais para ser casual.
Antonio ficou imóvel. A primeira reação foi lógica: alguém entrou na casa.
Mas essa hipótese não se sustentou por muito tempo. Não havia sinais durante o dia. Nenhum carro. Nenhuma mudança.
E, ainda assim… as luzes estavam acesas.
Ele sentiu o mesmo desconforto de antes, mas agora mais definido. Não era apenas presença. Era atividade.
Sem perceber exatamente quando decidiu, Antonio já estava do lado de fora. Caminhando. Atravessando o terreno escuro, guiado pela luz distante.
Cada passo parecia inevitável.
A casa estava igual.
E completamente diferente.
A porta, antes entreaberta, agora estava fechada. Mas não trancada.
Ele a empurrou.
Desta vez, o interior não estava mergulhado em abandono.
A poeira parecia… perturbada. Como se o ar a tivesse movimentado recentemente. As luzes iluminavam tudo com uma clareza quase excessiva, eliminando sombras, mas não o desconforto.
Antonio entrou.
E então percebeu. O silêncio não era ausência de som. Era contenção.
Como uma sala onde algo importante está prestes a ser dito.
Ele caminhou até a mesa. O caderno ainda estava lá. Mas não como ele o havia deixado.
Estava aberto. Na última página. E havia algo novo. Uma anotação que não estava ali antes.
A caligrafia era familiar. Mas não idêntica à do Dr. Henrique. Mais firme. Mais… estável.
Antonio leu:
“Paciente apresenta resistência moderada. Contato inicial bem-sucedido.
Reconhecimento em fase de transição. Intervenção direta iminente.”
O coração de Antonio acelerou.
Ele não precisava ler o nome. Sabia. Mesmo assim, seus olhos desceram pela página. E lá estava.
Antonio fechou o caderno de uma vez, como se o gesto pudesse interromper algo maior.
Mas não interrompeu.
Porque, atrás dele, uma voz — calma, precisa, profissional — quebrou o silêncio contido:
— Você decidiu voltar.
Antonio não se virou imediatamente.
Dessa vez, não foi o medo que o deteve. Foi a compreensão.
Lenta. Incômoda. Irreversível.
Ele havia passado a vida inteira, acreditando que observava o mundo de fora.
Agora começava a suspeitar… que nunca estivera realmente fora de nada.
Quando finalmente se virou, a sala parecia a mesma.
Mas a pergunta já estava feita. E, de algum modo, respondida.
As luzes não estavam acesas para iluminar a casa. Estavam acesas para ele.
A mudança não foi brusca, nem evidente para quem o encontrava casualmente. Ele continuava cumprimentando os vizinhos, comprando pão nas manhãs quentes, caminhando devagar pelas ruas de terra.
Mas havia algo deslocado nele — não no comportamento, mas no modo como ocupava o próprio silêncio.
Antes, Antonio observava o mundo. Agora, parecia escutá-lo. Com atenção excessiva. Como se cada pausa, escondesse uma continuidade que os outros não percebiam.
As noites tornaram-se seu verdadeiro território. Dormir deixou de ser descanso; era acesso. E, ao contrário do Dr. Henrique, Antonio não resistia mais. Havia aprendido algo essencial ao ler aquele caderno, ao ouvir aquela voz, ao ver as luzes se acenderem sem causa visível:
A resistência não interrompia o processo. Apenas o tornava mais confuso.
Então ele parou de resistir.
Na terceira noite, após voltar à casa, o sonho veio com clareza inédita.
Ele não “entrou” nele. Já estava lá.
A sala. Simples. Iluminada. Familiar de uma forma que não dependia da memória.
Desta vez, havia duas cadeiras ocupadas.
Antonio reconheceu imediatamente.
Dr. Henrique estava sentado de um lado, postura calma, olhar atento — não mais fragmentado, não mais perdido. Havia nele uma estabilidade que beirava o inquietante.
Do outro lado… um espaço vazio. Esperando.
— Sente-se — disse Dr. Henrique, com naturalidade.
Antonio não hesitou. Sentou. Por um instante, nada foi dito. O silêncio não era desconfortável. Era estrutural, como se fosse parte necessária daquilo.
Então Dr. Henrique falou:
— Quando você entrou na casa, achou que estava investigando.
Antonio assentiu, lentamente.
— Mas já estava sendo observado.
Antonio não respondeu, porque sabia. Sentia isso agora com uma clareza quase dolorosa.
— A diferença entre nós — continuou Dr. Henrique — é que você percebeu mais rápido.
— Percebi o quê? — perguntou Antonio, finalmente.
Dr. Henrique inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta fosse esperada.
— Que não há lá “fora”.
O silêncio voltou.
Mas, dessa vez, Antonio entendeu algo que antes lhe escapava. Não era uma explicação. Era um ajuste. Uma reorganização interna. Como se sua mente estivesse sendo reposicionada dentro de algo maior.
— E você? — perguntou Antonio.
— O que aconteceu com você?
Dr. Henrique não respondeu de imediato.
Quando o fez, sua voz era neutra demais para ser tranquilizadora:
— Eu parei de tentar sair.
Antonio sentiu um leve aperto no peito.
Não de medo. Mas de reconhecimento.
Na manhã seguinte, ele acordou sentado na própria cadeira da cozinha.
O sol já alto.
Um caderno aberto à sua frente. Não o do Dr. Henrique. Outro. Novo. Com sua própria caligrafia.
Ele não se lembrava de ter escrito, mas reconhecia cada traço.
Na página, uma anotação simples:
“Primeiro contato estabelecido sem resistência significativa.
Paciente demonstra adaptação progressiva. Estrutura permanece estável.
Sessão continuará.”
Antonio fechou o caderno devagar. Respirou fundo.
E, pela primeira vez, não tentou explicar, porque algo dentro dele já sabia:
A casa não estava vazia.
Nunca estivera.
E agora… também não estava mais fora dele.
Antonio vendeu a chácara, e desapareceu.
A negociação foi rápida demais para um lugar que, até pouco tempo, ninguém queria sequer mencionar. Um comprador apareceu sem muita barganha, sem perguntas, interessado apenas na escritura, na localização, na posse imediata.
Antonio não discutiu preço. Não discutiu nada. Assinou.
Os vizinhos acharam estranho, mas não surpreendente. Já não era o mesmo homem. Havia nele uma pressa silenciosa, não de fugir, mas de concluir algo.
Nos últimos dias antes da venda, foi visto poucas vezes. Sempre sozinho. Sempre com um caderno nas mãos.
Diferente do caderno do Dr. Henrique. Mais espesso. Mais usado.
Depois disso, sumiu. Sem despedidas. Sem aviso. Sem rastros claros.
Mas deixou uma última coisa.
O novo proprietário, ao entrar na casa pela primeira vez, encontrou-a limpa demais. Como se tivesse sido preparada — não para abandono, mas para continuidade.
Sobre a mesa, havia um caderno.
Não era antigo. Não tinha poeira. E estava aberto.
Na primeira página, uma anotação em caligrafia firme:
“Transferência concluída sem intercorrências. Ambiente preservado.
Novo observador integrado ao ciclo.”
O comprador leu sem entender. Virou a página. Uma lista de nomes, endereços, perfis.
Entre eles, um que lhe causou um desconforto imediato — embora não soubesse explicar por quê: o seu próprio nome.
Abaixo, uma observação:
“Ceticismo funcional. Curiosidade latente. Tendência à permanência.”
Ele fechou o caderno com um gesto seco, como se pudesse interromper algo antes que começasse.
Mas, ao erguer os olhos, teve a estranha sensação de que a casa já não era apenas um lugar. Era um ponto, de passagem, de continuidade.
Naquela mesma noite, ao deitar-se pela primeira vez no quarto ainda estranho, demorou a dormir.
Mas quando dormiu… não houve transição.
A sala estava lá. A luz. O silêncio estruturado.
E, desta vez, três cadeiras ocupadas.
Dr. Henrique, Antonio... E alguém que ainda não compreendia completamente o próprio papel.
— Bem-vindo — disse Antonio, com a mesma calma que um dia ouvira do Dr. Henrique.
O homem tentou falar, mas hesitou, porque, no fundo, algo já começava a se organizar dentro dele.
Não como medo, mas como reconhecimento.
A casa nunca precisou de moradores, apenas de participantes.
E em algum lugar distante, impossível de localizar no mapa ou na memória…
Antonio continuava, não como quem fugiu, mas como quem seguiu adiante dentro daquilo, que nunca teve começo claro — e talvez nunca tenha fim.
mario moura
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