O ENCONTRO MARCADO (versão definitiva)

 Escrever um contor sobre um milionário, agora idoso, reflete sobre o valor de conquistas materiais, pelos quais trabalhou a vida inteira, desprezando ações e conceitos sobre a essencia e o significado maior da vida. Reflete sobre a efemeridade da existência, e a ilusão de que o que conquistou fosse propriedade dele. Reflexão sobre brevidade da vida e a noção de que nada nos pertence. Tudo fica por aí, quando partimos

O ENCONTRO MARCADO

Na varanda silenciosa de sua mansão, onde o mármore ainda reluzia como nos dias de glória, Augusto observava o entardecer com olhos já cansados. Durante décadas, aquele homem fora sinônimo de sucesso: empresas erguidas do nada, contratos milionários, reconhecimento em todos os círculos que valorizavam números e poder. Agora, porém, restava-lhe o eco de uma vida inteira dedicada ao acúmulo — e uma inquietação que nenhum saldo bancário conseguia silenciar.

O vento suave trazia o cheiro distante da cidade que ele ajudara a construir, mas da qual pouco participara de verdade. Amigos? Poucos. Família? Distante. Tempo? Irrecuperável. Augusto começava a perceber que, enquanto erguia impérios, deixara ruir algo invisível, porém essencial.

“De que me serviu tudo isso?”, murmurou, mais para si do que para o vazio ao redor.

Lembrou-se das noites mal dormidas, das decisões frias, dos momentos em que escolheu o lucro em vez do afeto, o crescimento em vez da presença. Sempre acreditou que estava construindo algo duradouro, algo que o definiria para além da própria existência. Agora, à beira do fim, percebia o equívoco: nada daquilo lhe pertencia de fato.

As propriedades tinham seu nome, mas nunca foram suas. O dinheiro respondia aos seus comandos, mas jamais o acompanharia. As conquistas, antes tão sólidas, dissolviam-se diante da única certeza incontornável: ele partiria, e tudo ficaria.

Augusto fechou os olhos por um instante. Pensou na brevidade da vida — um sopro que, quando jovem, parecia um horizonte infinito. A ilusão do controle, da posse, da permanência… tudo agora lhe parecia uma narrativa frágil, construída para acalmar o medo do inevitável.

Talvez o verdadeiro erro não tenha sido trabalhar tanto, mas acreditar que aquilo era o todo. Ignorar o invisível, o intangível — o sentido, o vínculo, a experiência de simplesmente estar. Ele percebeu tarde demais que a vida não se mede pelo que se acumula, mas pelo que se vive e pelo que se compartilha.

O sol finalmente tocava o horizonte, tingindo o céu de tons dourados. Pela primeira vez em muitos anos, Augusto não pensava em amanhã, nem em negócios, nem em números. Apenas observava.

E, naquele instante silencioso, compreendeu algo simples e profundo: nunca fomos donos de nada. Somos apenas passageiros breves, atravessando um mundo que continuará, indiferente, após nossa partida.

Talvez, pensou ele, o verdadeiro valor estivesse justamente nisso — naquilo que não se pode guardar, mas apenas sentir.

E o vento levou consigo esse pensamento, como leva tudo o mais.

Augusto resolve escrever um conto, narrando toda a experiência de sua vida, determinada apenas em conquistar bens materiais, sem se preocupar com valores que refletissem um sentido maior da existência humana. Ao perceber que tudo o que acumulara ao longo de sua vida, poderia ter um sentido maior, uma consciencia do significado de que a existencia não se limita aos prazeres e acumulo de riquezes. Já idoso, faz um retrospecto arrependido de ter desperdiçado a oportunidade de ter conquistar valores mais humanos.

Augusto passou a noite em claro antes de começar. Sentado à mesma mesa onde assinara contratos que mudaram destinos — menos o dele —, abriu um caderno antigo, desses que jamais tivera tempo de usar. A caneta hesitou por alguns segundos. Pela primeira vez, não havia cifras a calcular, nem estratégias a traçar. Havia apenas o peso da própria história.

“Escrevo porque já não posso refazer”, iniciou.

Contou sobre o jovem obstinado que fora, movido por uma certeza quase sagrada: vencer era acumular. Cada conquista material parecia uma prova de valor, cada cifra maior, uma confirmação de que estava no caminho certo. E, de fato, o mundo ao seu redor reforçava isso — aplausos, convites, respeito. Tudo parecia convergir para a mesma mensagem: mais era sempre melhor.

No conto, descreveu suas vitórias com precisão quase fria. Prédios erguidos, empresas compradas, concorrentes superados. Mas, à medida que avançava nas páginas, o tom mudava. Entre uma conquista e outra, começaram a surgir ausências. Um aniversário perdido. Uma conversa adiada que nunca aconteceu. Um abraço que ficou para depois — e o “depois” nunca veio.

“Ganhei o mundo”, escreveu, “mas não estive nele.”

Augusto percebeu que sua narrativa não era sobre o que havia conquistado, mas sobre o que deixara escapar. O tempo, esse recurso invisível e inegociável, fora gasto como se fosse infinito. E, no entanto, era o único que realmente importava.

No conto, ele refletia sobre a ilusão da posse. Tudo aquilo que chamava de “meu” — casas, carros, títulos — nunca passara de um empréstimo temporário. Nada o acompanharia. Nada lhe garantiria sentido no fim.

“Confundi ter com ser”, registrou, com a caligrafia agora menos firme.

Ao avançar na escrita, uma nova consciência começava a emergir. Ele não negava o valor do trabalho, nem das conquistas. Mas via, com clareza tardia, que havia algo maior que ignorara: a construção de vínculos, o cultivo de valores humanos, a busca por significado além do imediato.

“Se pudesse recomeçar”, escreveu, “mediria minha vida não pelo que acumulei, mas pelo que compartilhei. Não pelo que conquistei sozinho, mas pelo que construí com os outros.”

As últimas páginas foram as mais difíceis. Não havia como reescrever o passado, apenas compreendê-lo. O arrependimento não era estridente, mas profundo — como uma maré silenciosa que cobre tudo sem pressa.

Ainda assim, havia uma espécie de paz naquele gesto. Ao escrever, Augusto não mudava o que viveu, mas dava sentido ao que restava. Seu conto não era apenas um relato — era um testemunho. Um aviso, talvez. Ou um pedido tardio para que outros não repetissem o mesmo erro.

Ao fechar o caderno, sentiu algo que há muito não experimentava: leveza.

Não porque tivesse resolvido tudo, mas porque, finalmente, havia entendido.

E, naquele entendimento, encontrou uma forma de redenção — pequena, silenciosa, mas verdadeira.

entre suas reflexões, explorar com mais profundidade a ilusão das conquistas materiais, anulando o seu lado mais humano e impedindo um estado de consciencia mais lúcida, que o conduzisse a edificar uma condição de paz interior, para quando chegasse ao final de sua vida, encontrasse transquilidade e conhecimento de que tudo é transitório

Augusto voltou ao caderno dias depois. Não para continuar a história como quem apenas relata fatos, mas para aprofundar aquilo que começava a doer com mais nitidez: a percepção de que sua vida fora guiada por uma espécie de encantamento — uma ilusão persistente, quase hipnótica, em torno das conquistas materiais.

“Não foi o dinheiro que me cegou”, escreveu. “Foi a crença de que ele me revelaria quem eu era.”

Ao desenvolver seu conto, passou a explorar essa ilusão como o verdadeiro eixo de sua existência. Não se tratava apenas de acumular riquezas, mas de atribuir a elas um papel que jamais poderiam cumprir. Cada nova conquista vinha acompanhada de uma promessa silenciosa: agora, sim, virá a satisfação plena. Agora, haverá descanso. Agora, farei as pazes comigo mesmo.

Mas esse “agora” nunca chegava.

Augusto percebeu que vivia projetado no próximo objetivo, no próximo contrato, na próxima aquisição. O presente tornara-se um intervalo incômodo entre desejos. E, nesse processo, algo essencial foi sendo lentamente apagado: sua capacidade de perceber, de sentir, de simplesmente estar.

“No afã de possuir o mundo”, escreveu, “perdi o contato com aquilo que me tornava humano.”

Ele reconhecia, com uma clareza tardia, que essa busca incessante não apenas o afastou dos outros, mas também de si mesmo. Seus afetos foram substituídos por estratégias, sua sensibilidade por cálculo, sua escuta por decisões rápidas. Tornou-se eficiente — mas incompleto.

O conto então mergulhava numa reflexão mais profunda: a de que o apego às conquistas materiais não apenas distrai, mas anestesia. Cria uma narrativa de controle, de permanência, de identidade baseada no que se tem — quando, na verdade, tudo isso é transitório.

“Vivi como se pudesse fixar o que é, por natureza, passageiro”, escreveu. “E, ao tentar segurar o tempo com as mãos, deixei de vivê-lo.”

Augusto passou a questionar a própria ideia de sucesso que o guiara. Percebeu que ela estava ancorada em um modelo externo, repetido, raramente examinado. Nunca havia parado para perguntar se aquilo fazia sentido para ele — apenas seguiu, com disciplina e ambição.

E foi justamente essa ausência de questionamento que, segundo ele, impediu o surgimento de uma consciência mais lúcida. Uma consciência que não se deixasse seduzir por acumulações, mas que buscasse compreender a natureza da própria existência. Que reconhecesse a impermanência como parte essencial da vida, e não como uma ameaça a ser ignorada.

“No fundo”, escreveu, “temi o vazio. E o preenchi com coisas.”

Mas o vazio, ele agora entendia, não era um inimigo. Era um espaço possível de silêncio, de escuta, de reconexão. Um espaço onde poderia ter encontrado paz — se não tivesse tentado evitá-lo a qualquer custo.

Ao se aproximar do fim de seu conto, Augusto não buscava mais respostas grandiosas. Havia, em suas palavras, uma simplicidade nova, quase desarmada:

“A tranquilidade que procurei no acúmulo estava, desde o início, na aceitação. Aceitação de que nada me pertence, de que tudo passa, de que viver é atravessar — não reter.”

Ele não romantizava o arrependimento, mas também não o rejeitava. Via nele uma forma de lucidez, ainda que tardia. Uma oportunidade de compreender — mesmo que já não pudesse mudar.

E talvez, pensava ele, essa compreensão fosse suficiente para que seus últimos dias não fossem marcados pela inquietação, mas por uma espécie de serenidade construída não pelo que possuía, mas pelo que finalmente enxergava.

Ao fechar o caderno mais uma vez, Augusto não se sentia redimido — mas desperto.

E, para alguém que passou a vida inteira adormecido em certezas, isso já era, por si só, uma forma de paz.

Antigas recordações invadem Augusto. Sua infancia, seus pais, irmãos, parentes que habitaram a intimidade de sua casa, velhos amigos da família. Tempos em que assistira longas conversas em familia,sobre a importância dos laços familiares, e outras reflexões preciosas que fizeram parte da sua formação.

As páginas seguintes do caderno não surgiram com esforço — vieram como uma inundação. Augusto mal precisou pensar. As lembranças, guardadas por décadas sob camadas de ambição e urgência, começaram a emergir com uma nitidez inesperada.

Ele se viu menino outra vez.

A casa simples, mas cheia de vozes. O som dos talheres nas refeições em família. As tardes longas, onde o tempo parecia não ter pressa. Seus pais sentados à mesa, não apenas para comer, mas para conversar — de verdade. Havia ali uma riqueza que, à época, ele não soube nomear.

“Naquela casa”, escreveu, “ninguém falava de dinheiro como finalidade. Falava-se de dignidade, de respeito, de estar presente.”

Lembrou-se do pai, um homem de poucas posses, mas de palavras firmes. Dizia que o valor de uma vida não se media pelo que se acumulava, mas pelo que se construía com os outros. A mãe, com sua serenidade, reforçava isso nos gestos — no cuidado, na escuta, na forma como fazia de cada momento algo inteiro.

E havia os irmãos, os parentes, os amigos que entravam sem cerimônia. Risadas, histórias repetidas, conselhos que pareciam simples demais para serem levados a sério… mas que agora, revisitados, revelavam uma profundidade silenciosa.

“Eu ouvi tudo aquilo”, escreveu Augusto, com certa dor. “Mas não escutei.”

Na juventude, aquelas conversas começaram a lhe parecer pequenas, quase ingênuas diante do mundo que ele desejava conquistar. Havia, dentro dele, uma urgência em ir além, em provar algo — talvez para os outros, talvez para si mesmo. E, nesse movimento, foi se afastando.

Primeiro fisicamente. Depois, afetivamente.

As visitas tornaram-se raras. As conversas, breves. Os encontros, protocolares. E, quando percebeu, já não fazia mais parte daquele espaço onde um dia fora inteiro.

“Troquei raízes por velocidade”, escreveu. “E não percebi o quanto isso me deixaria suspenso.”

Agora, ao revisitar essas memórias, Augusto não sentia apenas saudade — sentia reconhecimento. Aqueles momentos simples carregavam exatamente aquilo que ele passou a vida buscando em outros lugares: sentido, pertencimento, presença.

Percebia que sua formação havia sido rica em valores humanos, mas que ele, deliberadamente ou não, escolhera ignorá-los. Não por rejeição direta, mas por distração. Por acreditar que havia algo mais importante a conquistar.

E talvez houvesse — mas não no sentido que ele imaginou.

“No silêncio dessas lembranças”, escreveu, “encontro uma versão de mim que sabia, mesmo sem entender. Que sentia, mesmo sem nomear. E que, de algum modo, estava mais próximo da verdade do que o homem que me tornei.”

As vozes do passado não o acusavam. Não havia julgamento nelas — apenas uma presença constante, como se ainda estivessem ali, esperando que ele finalmente compreendesse.

E agora compreendia.

Que aqueles ensinamentos não eram obstáculos ao sucesso, mas caminhos para uma vida mais inteira. Que os laços que ele afrouxou eram, na verdade, o que sustentava tudo o mais. Que o tempo que ele considerou “perdido” em conversas e convivência era, na verdade, o mais bem investido.

Augusto fechou os olhos por um instante, deixando que aquelas imagens o envolvessem. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu urgência em seguir adiante. Havia algo ali que merecia ser vivido — mesmo que apenas na memória.

E, ao escrever essas lembranças, percebeu que ainda era possível resgatar algo essencial: não o passado em si, mas o entendimento do que ele significava.

Talvez não pudesse voltar.

Mas podia, ao menos, reconhecer.

E esse reconhecimento, tardio como fosse, devolvia a ele uma parte esquecida de si mesmo.

mario moura

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