UM ESCRITOR, SEUS PERSONAGENS E SEUS DESTINOS
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Segue um conto inspirado na narrativa proposta, com um tom entre o fantástico, o psicológico e o metaficcional.
O Herdeiro Inconformado
Antonio Santos passara a vida cercado de aplausos.
Seus romances eram estudados nas universidades, traduzidos em dezenas de idiomas e premiados com distinções que já perdera a conta. Durante anos, fora convidado para congressos, feiras literárias e programas de televisão. Respondia sempre às mesmas perguntas: de onde vinham suas ideias? Como criava personagens tão humanos?
Nunca respondia a verdade.
Porque a verdade era que, depois de algum tempo, os personagens deixavam de parecer invenções. Continuavam vivendo dentro dele, discutindo entre si, reclamando de um diálogo mal escrito, exigindo outro destino.
A fama, porém, transformara a literatura em espetáculo. Cansado dos holofotes, Antonio vendeu o apartamento na capital e refugiou-se num pequeno sítio, cercado por eucaliptos, um riacho estreito e uma biblioteca que ocupava quase metade da casa.
Ali acreditava que, finalmente, teria paz.
Enganou-se.
Na primeira noite ouviu passos na varanda.
Na segunda, encontrou uma cadeira da cozinha puxada para o centro da sala.
Na terceira, uma folha de papel apareceu sobre sua escrivaninha.
Havia apenas uma frase.
"Precisamos conversar."
Antonio sorriu. Imaginou que fosse algum brincalhão da cidade vizinha.
Queimou o papel na lareira.
Na noite seguinte, a mesma frase reapareceu.
Desta vez escrita com sua própria letra.
O homem surgiu numa manhã chuvosa.
Vestia um elegante terno cinza, encharcado pela chuva que, estranhamente, não deixava poças no chão.
Tinha cerca de quarenta anos.
O rosto era conhecido.
Terrivelmente conhecido.
Antonio levou alguns segundos para lembrar.
Então empalideceu.
Era Augusto Valença.
O protagonista de seu romance A Fortuna dos Mortos.
No livro, Augusto era um contador humilde que herdava inesperadamente a fortuna de um tio milionário. Pela primeira vez, sonhava viajar pelo mundo, restaurar a antiga casa da mãe, financiar bolsas de estudo para crianças pobres e abrir uma biblioteca pública em sua cidade.
Mas, poucas páginas depois da herança, contraía uma doença rara.
Morria antes de gastar um único centavo.
Os críticos chamaram aquilo de "uma profunda reflexão sobre a inutilidade da riqueza diante da morte".
O romance recebera dois prêmios internacionais.
Augusto, entretanto, não parecia impressionado.
Sentou-se diante do escritor.
— Então... foi por isso?
Antonio permaneceu calado.
— Responda.
— Você não existe.
Augusto sorriu.
— Curioso. Sou inexistente o suficiente para bater à sua porta.
O escritor tentou manter a calma.
— Estou sonhando.
— Também pensei isso... quando comecei a morrer.
O silêncio tornou-se pesado.
Lá fora, a chuva caía sem vento.
Augusto cruzou as mãos.
— Quero entender.
— Entender o quê?
— Por que me matou.
Antonio respirou fundo.
— Porque era necessário para a história.
— Necessário para quem?
— Para o romance.
— Não.
Augusto balançou a cabeça.
— Necessário para os leitores chorarem.
A frase atingiu Antonio como um soco.
Durante semanas, Augusto passou a aparecer todos os dias.
Nunca envelhecia.
Nunca comia.
Nunca dormia.
Sentava-se na varanda enquanto Antonio preparava café.
Fazia perguntas.
— Você sabia que eu queria conhecer o mar?
— Sabia.
— Então por que nunca escreveu essa viagem?
— Porque perderia força dramática.
— Dramática para quem?
Outro silêncio.
Pouco a pouco, Antonio começou a reler seus próprios livros.
Notou um padrão.
Quase todos os personagens mais generosos morriam cedo.
Os apaixonados terminavam sozinhos.
Os honestos fracassavam.
Os sonhadores eram esmagados pela realidade.
Percebeu que chamava aquilo de realismo.
Augusto chamava de crueldade.
Numa tarde, cansado daquele julgamento interminável, Antonio explodiu.
— Você acha que escrever é brincar de Deus?
Augusto respondeu sem alterar a voz.
— Não.
Fez uma pausa.
— Acho pior.
Antonio franziu a testa.
— Deus, ao menos, permite que as pessoas decidam algumas coisas.
Você não.
Antonio sentiu um arrepio.
Nunca havia pensado assim.
Naquela noite, abriu um caderno em branco.
Escreveu apenas uma frase.
"Augusto não morreu."
Esperou.
Nada aconteceu.
Escreveu outra.
"O diagnóstico estava errado."
O lampião tremeluziu.
A casa inteira pareceu respirar.
Antonio continuou.
Escreveu durante horas.
Descreveu Augusto recuperando a saúde.
Viajando.
Conhecendo o oceano.
Construindo a biblioteca que sempre desejara.
Casando-se.
Envelhecendo.
Vendo os netos correrem entre as estantes.
Quando terminou, o sol começava a nascer.
Levantou os olhos.
A cadeira em frente estava vazia.
Pela primeira vez em meses.
Sorriu.
Talvez tivesse conseguido reparar o erro.
Então ouviu uma voz atrás de si.
— Obrigado por ele.
Antonio virou-se.
Não era Augusto.
Era uma jovem que jamais vira.
Trazia um vestido simples e segurava um livro antigo.
— Quem é você?
Ela sorriu.
— Clara.
Antonio sentiu o coração acelerar.
Lembrou-se imediatamente.
Clara era uma personagem secundária de outro romance.
Morria num incêndio no capítulo quatro.
Ela inclinou a cabeça.
— Podemos conversar sobre o meu caso também?
Antonio olhou para a biblioteca.
Centenas de livros.
Milhares de personagens.
Dezenas de mortes.
Centenas de sonhos interrompidos.
Pela primeira vez, compreendeu que nunca estivera sozinho naquele sítio.
Fechou lentamente o caderno.
Lá fora, passos ecoavam pelo jardim.
Eram muitos.
Cada vez mais próximos.
Essa continuação aprofunda o conflito filosófico da história: até que ponto um autor é responsável pelo sofrimento que impõe às suas criaturas? Em vez de uma simples assombração, Antonio passa a enfrentar uma espécie de julgamento literário.
Na manhã seguinte, Antonio encontrou a varanda ocupada.
Não por uma pessoa.
Por dezenas.
Homens, mulheres, crianças, velhos. Alguns bem vestidos, outros com roupas rasgadas. Havia soldados, professores, pescadores, músicos, médicos, prostitutas, lavradores. Todos lhe eram familiares.
Reconhecia cada rosto.
E isso era o pior.
Não eram desconhecidos.
Eram filhos de sua imaginação.
Cada um carregava consigo a marca da história que lhe fora destinada.
Um rapaz trazia no peito o buraco da bala que o matara no capítulo final de um romance policial.
Uma mulher segurava um vestido de noiva nunca usado.
Um velho apertava contra o peito um relógio quebrado, esperando inutilmente pelo filho que Antonio jamais fizera regressar da guerra.
Uma menina carregava um caderno escolar encharcado. Morrera numa enchente antes do primeiro dia de aula.
Nenhum parecia zangado.
Pareciam decepcionados.
Antonio tentou fechar a porta.
Ela não obedeceu.
A maçaneta girava inutilmente.
Como se a própria casa tivesse decidido recebê-los.
Augusto tomou a palavra.
— Não viemos para nos vingar.
Antonio respirou aliviado.
Mas Augusto completou:
— Viemos compreender.
Um murmúrio percorreu o grupo.
Então uma senhora de cabelos completamente brancos deu um passo à frente.
Antonio lembrava-se dela.
Era Helena.
Passara quarenta anos cuidando do marido enfermo.
Quando finalmente ele morria e ela resolvia recomeçar a vida, Antonio encerrara o romance com um aneurisma fulminante.
Helena olhou-o sem qualquer rancor.
— Eu queria saber...
Fez uma pausa.
— Por quê?
Antonio baixou os olhos.
— Era o encerramento perfeito.
Helena sorriu tristemente.
— Perfeito para quem?
O silêncio tornou-se insuportável.
Outro homem aproximou-se.
Era Joaquim, o violinista.
Durante trezentas páginas lutara para entrar na principal orquestra do país.
Na noite da apresentação decisiva, Antonio fizera um caminhão atravessar o sinal vermelho.
— O senhor sabe quantas horas eu pratiquei?
Antonio não respondeu.
— O senhor escreveu cada uma delas.
Outra voz.
— Eu passei vinte anos procurando minha filha.
Era o velho Ernesto.
— Quando finalmente a encontrei, o senhor terminou o livro duas páginas antes do reencontro.
Mais vozes surgiram.
— Eu nunca conheci meu filho.
— Eu jamais vi o mar.
— Nunca terminei minha pesquisa.
— Nunca pedi perdão ao meu irmão.
— Nunca dancei com minha esposa.
— Nunca envelheci.
As frases começaram a sobrepor-se.
Não eram acusações.
Eram inventários.
Inventários de vidas interrompidas.
Antonio levou as mãos aos ouvidos.
Mas as vozes agora vinham de dentro de sua memória.
Lembrou-se de entrevistas em que afirmara:
"Um bom romance precisa ferir."
"Personagens felizes produzem leitores indiferentes."
"O sofrimento aproxima a literatura da verdade."
Augusto caminhou lentamente até ele.
— Foi isso que aprendemos.
Antonio ergueu os olhos.
— Aprenderam?
— Sim.
Lemos tudo o que disseram sobre nós.
As críticas.
As teses.
As entrevistas.
Descobrimos que nossas dores renderam prêmios.
Que nossas mortes foram chamadas de belas.
Que nossa infelicidade era necessária.
Necessária para emocionar pessoas que fechavam o livro e continuavam vivendo.
Enquanto nós...
Nunca pudemos virar a página.
Antonio sentiu o corpo fraquejar.
Jamais havia pensado que, para um personagem, a última página era uma eternidade.
Uma jovem aproximou-se.
Era Clara.
Aquela do incêndio.
— O senhor sabe qual foi minha última sensação?
Antonio permaneceu imóvel.
— Eu sabia que ia morrer porque o senhor já tinha decidido.
Mas eu não sabia por quê.
Passei toda a minha existência tentando encontrar sentido naquilo.
Não havia.
Era apenas um recurso narrativo.
Uma solução elegante para aumentar a tensão.
Ela sorriu.
Um sorriso infinitamente mais triste do que qualquer lágrima.
— O senhor nos chama de personagens.
Nós nos chamamos pessoas.
Foi então que Antonio compreendeu o verdadeiro motivo de todos estarem ali.
Não queriam outra vida.
Não exigiam ser ricos, famosos ou imortais.
Queriam apenas uma resposta.
Qual era o critério?
Por que alguns recebiam redenção e outros apenas sofrimento?
Por que um criminoso terminava arrependido, enquanto uma criança morria sem conhecer a juventude?
Por que um homem cruel enriquecia, enquanto uma mulher bondosa perdia tudo?
Por que distribuir felicidade, como quem distribui esmolas, e tragédias como quem lança dados?
Antonio tentou responder.
Falou de estrutura narrativa.
De conflito.
De catarse.
Da tradição da tragédia grega.
Do realismo.
Da necessidade dramática.
À medida que falava, percebia que aquelas palavras, tão admiradas em conferências literárias, pareciam ocas diante daqueles que haviam vivido suas consequências.
Quando terminou, ninguém respondeu.
Foi um menino que rompeu o silêncio.
Teria uns dez anos.
Antonio levou alguns segundos para reconhecê-lo.
Era Miguel.
O garoto que morrera de leucemia em um conto publicado vinte anos antes.
Miguel perguntou com a simplicidade que apenas as crianças possuem:
— O senhor já chorou escrevendo uma morte?
Antonio assentiu.
— Muitas vezes.
— Então o senhor sofria...
— Sim.
Miguel sorriu com delicadeza.
— A diferença é que, quando acabava de chorar, o senhor começava outro livro.
Nós continuávamos mortos.
Nenhuma frase jamais atingira Antonio com tanta força.
Pela primeira vez desde que começara a escrever, ele deixou de se sentir autor.
Sentiu-se réu.
E compreendeu que aquele encontro não terminaria enquanto não respondesse à única pergunta que jamais fizera a si mesmo:
Quem concede ao escritor o direito de decidir o destino daqueles a quem deu existência?
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário