A VACA AO LADO DO PIANO (Versão para publicação)

                           

                                        A Vaca ao Lado do Piano

CAPÍTULO 01

Quando Asdrubal Soares abriu os olhos naquela manhã, nada indicava que o universo tivesse decidido mudar suas regras. O despertador atrasava três minutos, como fazia havia anos. O café exalava o mesmo perfume resignado. A luz atravessava a cortina, exatamente como na véspera.

Foi apenas ao entrar na sala de jantar, que a realidade resolveu pigarrear.

Ali, deitada ao lado do velho piano de cauda, herdado de uma tia pianista que nunca aprendera a tocar, repousava uma vaca, com largas manchas pretas espalhadas pelo corpo, o olhar dócil, como se esperasse o apocalipse.

Não uma vaca nervosa, nem uma vaca perdida, muito menos uma vaca escandalizada, por estar em ambiente urbano. Era uma vaca absolutamente tranquila.                                                                                                                      As patas dobradas sob o corpo, a respiração lenta, o olhar pacífico e doce, como quem contempla um horizonte invisível. Havia em seus olhos uma delicada admiração, dirigida talvez ao piano, talvez à casa, talvez ao próprio Asdrubal.

— Estou sonhando??... Ou delirando?...

Disse isso mais para si, do que para a visitante.

Piscou.

A vaca permaneceu, serena, na típica postura das vacas quando estão deitadas.

Esfregou os olhos.

A vaca permaneceu.

Voltou para o quarto, deitou-se novamente, contou até cinquenta e três — porque cinquenta lhe pareceu pouco convincente — e retornou.

A vaca permanecia, silenciosamente...

Entre o susto e a surpresa, Asdrubal Soares ficou imóvel. Afinal, poucas experiências humanas preparam alguém para acordar e encontrar um ruminante instalado serenamente na sala de jantar.

Tentou racionalizar.

Talvez tivesse sonambulizado e comprado uma vaca.

Talvez algum vizinho estivesse procurando por ela.

Talvez a prefeitura estivesse promovendo um programa de aproximação entre cidadãos e mamíferos.

Nenhuma hipótese possuía sustentação suficiente, para competir com a serenidade daquele animal.

Aproximou-se devagar.

A vaca ergueu discretamente a cabeça.

Continuava olhando para ele em silêncio.

— Com licença...

A vaca piscou lentamente, como se assentisse à solicitação.

— Você... poderia me explicar o que está fazendo na minha sala?

Depois de alguns segundos, ela respondeu com uma voz baixa, grave e surpreendentemente educada.

— Estou esperando que você se lembre.

Asdrubal sorriu de nervoso.

— Lembrar do quê?

— De onde colocou a porta.

Ele olhou ao redor.

A porta de entrada estava em seu lugar.

A da cozinha também.

A do corredor igualmente.

— As portas estão todas aí.

A vaca pareceu decepcionada.

— Essas são apenas portas de madeira. Estou falando da outra.

Asdrubal sentiu um leve frio percorrer-lhe a nuca.

— Existe outra?

— Existia.

Silêncio.

O relógio da parede resolveu atrasar mais dois minutos.

— E onde ela dava?

A vaca respirou fundo.

— Para terça-feira.

Asdrubal pensou que talvez enlouquecer, possuísse uma elegância inesperada.

— Desculpe... terça-feira?

— A verdadeira. Não essa que aparece toda semana. A outra.

Mario Moura                                                                                                             (do livro Pequenas Histórias Sem Testemunhas, Ensaios e Vagas Anotações)


CAPÍTULO 02

Ela aproximou o focinho do piano.

— Você costumava atravessá-la quando era criança.

— Nunca atravessei porta nenhuma além das normais.

A vaca soltou um mugido tão discreto, que pareceu um suspiro.

— É exatamente isso que todos dizem, quando esquecem.   

Naquele instante, uma nota grave ecoou.

O piano tocara sozinho.

Nenhuma tecla havia descido.

Mesmo assim, o som encheu a sala como se viesse do teto.

Depois outra nota.

Depois outra.

A melodia era estranha.

Não parecia composta por sons, mas por lembranças.

Asdrubal teve a impressão de reconhecer o cheiro da casa da avó.

Depois viu, por um instante, um guarda-chuva flutuando dentro de um lago.

Depois recordou um amigo de infância, cujo rosto desaparecera da memória havia décadas.

As notas não produziam música.

Produziam passado.

— O piano está desafinado com o tempo — comentou a vaca.

— Pianos desafinam com o tempo.

— Não esse tipo de tempo.

O teto começou lentamente a ficar transparente.

Não transparente como vidro.

Transparente como uma lembrança antiga.

Acima deles passavam peixes.

Peixes enormes.

Nadavam num céu cheio de água.

As nuvens, por sua vez, flutuavam no chão.

Uma delas atravessou lentamente os pés de Asdrubal.

Era macia.

Tinha cheiro de giz.

— Está vendo? — perguntou a vaca.

— O quê?

— O mundo já começou a esquecer que é mundo.

Asdrubal não respondeu.

Sentia que qualquer frase poderia, desmontar alguma parte importante da realidade.

Então percebeu algo ainda mais estranho.

Na parede da sala havia um retrato.

Era dele mesmo.

Mas o homem da fotografia continuava se movendo.

O retrato sorriu.

Levantou-se.

Saiu da moldura.

Cumprimentou a vaca, com um aceno respeitoso.

— Demorou para acordar — disse sua versão emoldurada.

— Quem é você?

— Sou o Asdrubal, que continuou vivendo dentro das possibilidades que você abandonou.

Mario Moura                                                                                                             (do livro Pequenas Histórias Sem Testemunhas, Ensaios e Vagas Anotações)

CAPÍTULO FINAL

A frase fez sentido durante, exatamente dois segundos.

Depois deixou de fazer.

O retrato caminhou até o piano e desapareceu entre as teclas.

A música cessou.

A vaca fechou os olhos.

— Agora podemos conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre aquilo que vocês, humanos, chamam de realidade.

— O que tem ela?

— Vocês a tratam como uma pedra.

Fez uma pausa.

— Ela é uma vaca.

Asdrubal franziu a testa.

— Como assim?

— Rumina.

Engole o dia.

Depois devolve tudo transformado.

Vocês acham que vivem acontecimentos.

Na verdade, vivem digestões.

Aquilo ficou ressoando dentro dele, de maneira desconfortavelmente lógica.

A vaca prosseguiu:

— É por isso que ninguém percebe, quando o impossível entra pela janela. Ele apenas mastiga um pouco mais devagar.

Nesse momento, o relógio começou a andar para trás.

Os ponteiros desfaziam as horas como quem desmancha um cachecol.

A luz voltou para dentro do sol.

As sombras recolheram-se aos objetos.

As palavras pronunciadas por Asdrubal retornaram à sua boca.

Ele ouviu seu próprio silêncio.

Por fim, tudo ficou imóvel.

A vaca levantou-se.

Era muito maior do que parecera enquanto deitada.

Mesmo assim, caminhava sem produzir qualquer ruído.

Parou diante da parede, onde não existia porta alguma.

Olhou para trás.

— Quando você voltar a encontrá-la, não tenha medo de atravessar.

— E se eu nunca encontrar essa porta?

Ela sorriu.

Sim!  As vacas também sorriem, quando ninguém insiste em classificá-las.

— Você a encontra todas as manhãs.

— Onde?

A vaca inclinou a cabeça.

— Entre o instante em que acorda... e o momento em que decide acreditar no que vê.

Então atravessou a parede.

Não deixou buraco.

Não deixou rachadura.

Apenas desapareceu.

Na sala restaram o piano, o silêncio e um único tufo de capim extremamente verde.

Asdrubal aproximou-se da janela.

Lá fora, os vizinhos caminhavam normalmente.

Os carros passavam.

Os cães latiam.

Tudo parecia rigorosamente comum.

Mas, ao longe, sobre o telhado da igreja, uma nuvem pastava tranquilamente.

E ninguém parecia achar aquilo estranho.

mario moura                                                                                                             (do livro Pequenas Histórias Sem Testemunhas, Ensaios e Vagas Anotações)

Esse conto busca preservar a atmosfera típica do surrealismo: o impossível não é explicado, mas aceito progressivamente; os símbolos (a vaca, o piano, a porta e o tempo) substituem a lógica narrativa convencional, convidando o leitor a interpretar seus significados em vez de resolvê-los.


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